SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:03

Valência e arroz à valenciana

Três províncias (Valência, Castellón, Alicante) constituem esta “Comunitat”. Cobre mais de metade da superfície do Levante, ou seja o litoral oriental da Península ibérica, entre a Catalunha e a Andaluzia.

Há muitos, muitos anos, que não viajávamos nesta região. A última vez, ainda era caudilho o General Francisco Franco Bahamonde. As grandes urbes estão irreconhecíveis e a cultura também. Um bom exemplo será a proliferação de placas toponímicas em valenciano, um dialecto da língua catalã. E, sobretudo, ouvir  jovens a conversarem neste idioma.

A caminho dos 900.000 habitantes, Valência é a metrópole desta comunidade autónoma e, bem assim, o terceiro município de Espanha em termos de população. Quanto à economia, é o sector dos serviços que tem maior peso, logo seguido pela indústria. Sempre foi um importante centro de comércio, mas a grande actividade concentra-se agora no turismo. Infelizmente, a edificação de verdadeiras florestas de apartamentos para turistas, desfigurou as zonas costeiras. O que valeu foram os investimentos avultados na realização de eventos desportivos de primeira ordem e a construção de infra-estruturas essenciais para todo o lazer de residentes e forasteiros.

Muitos dos projectos dispendiosos eram de uma perversa banalidade. Até que apareceu um “local boy” chamado Santiago Calatrava. Foi ele quem desenhou e planeou a impressionante “Ciudad de las Artes y de las Ciencias” (composta do El Palau de les Arts Reina Sofía, do L’Hemisfèric, com um cinema Imax e um Planetário; de L’Umbracle com jardins e parques; de El Museu de les Ciències Príncipe Felipe; do Oceanografic e de uma imensa Ágora multiusos).

Aliás, temos a certeza que foi por causa deste ambicioso, imponente e belíssimo projecto de arquitectura que lhe foi atribuído o Prémio Príncipe de Astúrias de 1999. Quem vê este espaço ao longo do rio Turia, é levado a sonhar que se encontra noutro planeta, ou num cenário de ficção científica.

Toda a gente sabe que as duas grandes capitais peninsulares são Madrid e Barcelona. Claro que ultrapassam Valência em população. No entanto, será diminuto o número de pessoas a crerem que, no que toca a importância histórica, não lhes fica atrás.

Foi fundada pelos romanos que depressa compreenderam que as “huertas” tinham um enorme potencial agrícola. Em seguida vieram os mouros e, em 1094, a primeira conquista cristã por El Cid— representado por Charlton Heston numa famosa produção hollywoodesca com o mesmo nome. Contudo, a tomada definitiva é feita por Jaime I de Aragão, em 1238.

Durante parte da guerra civil, serviu como capital provisória da República e talvez os danos produzidos pelos combates expliquem o facto de ter hoje poucos monumentos de envergadura. De facto, as construções de um mesmo período histórico são um pouco raras, com a excepção dos palácios de famílias nobres.

Estamos a pensar na “Seo” (Catedral de Santa Maria) que é uma autêntica mescla de estilos. Ao lado da Porta dos Apóstolos, uma série de arcadas que poderiam enquadrar qualquer praça de touros. Uma singularidade que não se esquece. Também é digna de menção a reverência que os valencianos têm pela Miguelete, uma torre atarracada cuja altura é igual à largura e tem um sino chamado Miguel. Os locais gostam de a comparar com a Giralda sevilhana.

Por via das conquistas ultramarinas, as ligações ao resto do Mediterrâneo e ao Oriente sempre marcaram a região. Quiçá, venha daí o interesse pela rizicultura que, de início, teria sido introduzida pelos primeiros colonos árabes e berberes. Já no século XIX, o escritor Vicente Blasco Ibáñez (1867-1928) descreve em “La Barraca” a determinação dos camponeses perante a força opressora do ambiente.

Tal como na Andaluzia, é nesta parte da península que mais se sente a presença árabe e muçulmana na vida quotidiana. As sobremesas ainda são confeccionadas a partir de amêndoas e mel, pão com sabor a anis e cominhos. Não obstante a abastança de bolos e doces, foi a “paella” que se tornou num dos pratos mais emblemáticos da gastronomia espanhola.

Nasceu nos arrozais da região e leva coelho, frango, favas e os mariscos que estiverem à mão. O ingrediente de base é evidentemente o arroz, em particular o de tipo “bomba”, com grãos quase esféricos e mais seco do que os demais. Os especialistas na arte dos tachos e panelas, afirmam que absorve três vezes o seu peso em líquido após ser cozinhado. Faz lembrar o malandrinho tão apreciado pelos portugueses.

Além da “paella”, alguns leitores também associarão esta cidade mediterrânica às “fallas”, as célebres festas que se realizam no dia de São José, quando se fazem fogueiras e se queimam os “ninots”, gigantescas imagens satíricas em cartão e madeira. Além do mais, para quem goste de fogo-de-artifício, deve tratar-se de uma data e de um local a não perder.

Chegámos atrasados para nos maravilhar com tantos divertimentos. Não perdemos, porém, uma única oportunidade para comer arroz com uma variedade de ingredientes. Optámos pelos mariscos, mas até comemos fêveras de coelho à mistura.

Como ouvimos um colega exclamar: “Not bad at all” (nada mau!).

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