SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 23:41

Azeite e Chefe Paulo da Silva

 

Não sabemos porquê, mas hoje veio-nos à memória a D. Efigénia. Vivia no andar por cima da drogaria do Senhor Serra, na rua da Levada. No vão das escadas, tinha uma grande talha. Era lá que a nossa Avó nos mandava ir com a almotolia buscar o azeite, apesar de também se vender noutras mercearia da mesma rua: do Senhor Leitão, localizada em frente da oficina do Pai do João Farinha Cordeiro, ou do Senhor Pina, já quase no Largo da Botica. Isto há mais de cinco décadas!

 

De há uns anos a esta parte, enobrece as prateleiras das mercearias norte-americanas uma grande variedade de tipos de azeite. Tornou-se de bom-tom saber falar desta novidade. Tal como se distingue um carbernet-sauvignon dum merlot, o mesmo acontece com os gostos do azeite. O que se usa para as saladas não deve ser o mesmo para preparar um refogado de cebola.

 

Fora do sul da Europa, Norte de África e Médio Oriente, o azeite é utilizado sobretudo como tempero. Há mais de dois milénios que fenícios e sírios cozinham com ele. Na actualidade, tornou-se indispensável na chamada “dieta mediterrânica”, pois está provado que o seu consumo regular reduz a ocorrência de doenças cardiovasculares.

 

Os colonizadores romanos trouxeram para a Peninsula Ibérica a olivicultura e, desde então, não há recanto de Portugal ou Espanha onde não se produza azeite. Por vezes, de menor qualidade. Mas também existem marcas bastante acima da média. Tampouco podemos esquecer os excelentes produtos dos agricultores da região, como defendem, com muita razão, os nossos amigos Jaime do Rosário, João da Guia e o mediático Chefe Silva.

 

Incluímo-nos no número dos aficionados deste óleo bem lusitano. Os franceses que, ainda pontificam em matéria de comes-e-bebes, têm pouco mas de classe (Nyons, Nîmes). Como em Portugal, a produção é pouca e ninguém consegue uma pequena garrafa importada de França por menos de 40 dólares. A desculpa é o carácter das azeitonas “picholine”. Uma pista a seguir pelos exportadores portugueses?

 

De melhor ou pior qualidade, os países que mais vendem azeite no mundo continuam a ser a Espanha, a Itália e a Grécia. Porém, no continente americano, não é difícil encontrar óptimos azeites importados da Tunísia, Israel, Turquia, Líbano, Marrocos e, mais recentemente, Austrália, Argentina, Chile e Califórnia.

 

Hoje, os Estados Unidos produzem cerca de 10% do azeite mundial. Metade é “extra virgem” com extracção a frio. E, como aconteceu na vinicultura, estão prontos para conquistar o mercado de gama alta.

 

Já nos referimos noutras ocasiões à “nouvelle cuisine” que caracteriza a gastronomia californiana. Não foi por acaso que celebradas catedrais da cozinha —  “The French Laundry” ou “Chez Panisse” — pautam pela utilização exclusiva de produtos frescos e locais. Só podiam aparecer na costa do Pacífico, com azeite biológico, grandes vinhos e muito sol! Ingredientes também presentes em Torres Novas.

 

Todo este arrazoado para chegar à entrevista que o Chefe Paulo da Silva deu a este semanário (“O Almonda”, 13.02.2009, p.4), um exemplo de inovação na gastronomia torrejana. Foi uma lufada de ar fresco quando afirmou: “A ideia é chamar as pessoas, temos produtos tão bons aqui na região, o azeite, as azeitonas, o figo. Isso, aliado à cozinha de qualidade que pratico”.

 

Gostaríamos de concluir com um grande louvor para o Chefe Paulo da Silva que, nas pégadas de Alice Waters, quer servir comida saudável, gostosa e local: o nosso vinho, os nossos frutos e o nosso azeite. Será uma mais-valia para a cidade. Um jovem que sabe arriscar, que promete. Na próxima visita à “santa terrinha”, lá iremos para uma degustação.

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