SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 16:44

Em louvor da poesia

Parece tratar-se de uma variedade de estrabismo cerebral. Portugal define-se como país de vates, contudo poucos portugueses lêem os seus poemas. Por sermos leigos na matéria, não nos arriscaremos a opinar sobre essa contradição. Suspeitamos que os nossos compatriotas, por falta de disposição ou de tempo, se tornaram consumidores minguantes de livros, revistas e jornais. Com a possível excepção d’A Bola.

Devemos ser o único animal que, graças à reflexão, é capaz de se auto observar a partir do exterior. No entanto, a fantasia humana não deixa de ser um mistério indecifrável e oscila sempre desde as aspirações espirituais aos instintos mais baixos.

Se é verdade, como ouvimos um ensaísta afirmar, que o falar representa o grau mais elevado na evolução da nossa espécie, não temos dúvida alguma que a interpretação das emoções se situa ainda hoje no topo dessa escala.

Apesar de se continuar a olhar de través para quem se passeie com livros de poesia ou recite versos, há muito boa gente que gosta deste estilo de escritura. De resto, trata-se de expressões literárias que são com certa frequência menosprezadas e vítimas de preconceitos.

Após uns minutos de reflexão, concluímos que, durante o período de escolaridade obrigatória, nunca nos expuseram de forma conveniente a estas facetas da arte. Nunca lhes foi dada a merecida valia. Saltitava-se de um autor para outro, pois mal havia tempo nos programas oficiais para ir além da Arcádia Lusitana, do “Frei Luís de Sousa”, das “Lendas e Narrativas” e da “grande seca” camoniana.

Cremos que nos foi implicitamente martelado na cabeça que o importante era estudar os autores e os textos da “Selecta” da disciplina de português que eram os que sairiam no exame. A não ser que tivéssemos compreendido mal.

São numerosos os “jovens” da nossa geração que lamentam não terem sido iniciados noutras andanças da poesia. Quiçá lhes tivessem aberto janelas para contemplar outras sensibilidades, porém as directivas ministeriais eram rigorosas na transmissão de determinados valores. Talvez tenha sido esse o motivo para o professor apenas nos fazer memorizar “O Mostrengo”, de Fernando Pessoa. Pena é que não tivéssemos aprendido mais sobre esta figura de topo nas letras nacionais.

Na semana passada, convidaram-nos para um serão de música e poesia. Aceitámos por obrigação, mas gostámos. Não fossem os intervenientes nossos amigos, por certo não teríamos feito parte da magra audiência.

Cada uma das prestações activas foi magnífica. Em particular, a de um dos declamadores.  O ritmo improvisado da locução tinha um ar de tal modo sincero que quase nos fez levitar. A eloquência superava o sentido das palavras, das sonâncias e da linguagem. Ficámos encantados e saímos de lá mentalmente satisfeitos.

Repetimos que, em circunstâncias normais, teríamos encontrado outro destino para duas preciosas horas de lazer. Em princípio, selecionaríamos outra diversão. Agora, devemos dar a mão à palmatória e partilhar uma grande verdade: ninguém gosta de perder tempo com o que desconhece. É humano, mas é um erro.

Terminamos com uns versos de Manuel Machado que descobrimos há bastantes anos:

Caminante, son tus huellas

el camino y nada más;

Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino

sino estelas en la mar.

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