SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 20:46

Melros há muitos

Não nos referiremos apenas aos espertalhões, a que o povo também denomina por “melros”. Estamos a perder a pachorra com essas pessoas que deram cabo do país ou que, a troco de um prato de lentilhas, fingem não saber quem também é responsável pela roubalheira que se enraizou na sociedade portuguesa. Não vale a pena andar sempre a dizer mal somente do Governo actual porque, para além de não resolver os problemas, tornou-se um lugar-comum. Não há quem não o diga.

No entanto, com a chegada dos avisos para liquidar mais uma prestação do IMI, seria conveniente não esquecer que as autarquias aprovam a taxa a nível local. Ao acaso, pegámos no formulário de cobrança referente ao pagamento deste imposto em novembro. A percentagem da taxa que pagámos num concelho vosso conhecido foi mais do dobro da colectada noutro.

Será que os contribuintes já se esqueceram como foi aprovada esta taxa numa Assembleia Municipal controlada pelos paladinos do despesismo? Verifiquem quem votou a favor e quem votou contra. Claro que se desculparam com a regularização da dívida. O calote, porém, vai durar bastantes anos e os “melros” continuam a assobiar para o lado, enfiando, mais uma vez, a cabeça na areia. Assemelham-se assim aos senhores do outro regime. Teria sido para isto que houve o 25 de abril? Como é possível tanto bla-bla-blá? Será para narcotizar os eleitores?

Mas mudemos de tema. Falemos do tempo, ou mais precisamente da primavera neste Canadá de surpresas climáticas, onde a estação tem sido um autêntico desaire da Mãe Natureza com chuva, nevoeiro, frio, vento e até neve. A Prima-Dona da meteorologia atormentou-nos com todas as armas que tem ao dispor. Resta-nos esperar melhores dias.

Sabemos que o inverno está a ficar para trás, quando ao olhar pela janela do escritório vemos no quintal o primeiro “robin” que, vindo de latitudes meridionais, saltarilha na relva ainda parda onde a irmã-minhoca está à sua espera. Estes “robins” são castanhos, com algumas penas grisalhas e com o peito em tom de ferrugem. Contudo, os trinados, o tamanho e o bico amarelo são igualzinhos aos dos primos europeus. De tal modo que, nas agora obsoletas notas canadianas de dois dólares, via-sena imagem de um destes pássaros e a legenda “melre d’Amérique”.

Foi para evitar semelhantes confusões que Carl Linnaeus (1707-78) criou uma nomenclatura binomial em latim para classificar plantas e animais. Assim, fomos verificar os nomes científicos das aves acima mencionadas. As do velho mundo: Turdus merula. As americanas: Turdus migratorius. Como a designação latina indica, pertencem à família dos tordos.

Fomos à arrecadação buscar um antiquado dicionário Português-Inglês, da Editorial Domingos Barreira do Porto, que temos desde as primeiras aulas da língua de Shakespeare. Talvez alguns companheiros do antigo Colégio de Andrade Corvo se recordem dele. O autor era o Padre Júlio Albino Ferreira e a docente mandava-nos tirar significados. Se fosse hoje, teríamos de copiar no respectivo caderno: “blackbird” (pássaro preto) “sly fellow” (espertalhão).

Alguns leitores também se lembrarão dos poemas de Guerra Junqueiro, “persona non grata” para alguns docentes de português que tivemos no ensino liceal. À moda do situacionismo vigente, o mestre não perdia nenhuma oportunidade para denegrir “A Velhice do Padre Eterno”.

Pois foi desse crítico do conservantismo de então e autor de “Finis Patriae”, que rebuscámos um dos poemas pelo qual ficou célebre e que começa da seguinte maneira:

“O melro, eu conheci-o// Era negro, vibrante, luzidio//Madrugador, jovial;// Logo de manhã cedo// Começava a soltar d’entre o arvoredo// Verdadeiras risadas de cristal.” Limitamos a citação a estas estrofes, visto que é marcadamente anticlerical.

De facto, são numerosos os portugueses que sentem um carinho muito particular por esta espécie passeriforme. Incluímo-nos nesse grupo e, ainda há cerca de dois meses, admirámos durante uma boa meia hora um melro que julga ser o dono do jardim. Foi em Portugal, por isso tinha o corpo negro e o bico amarelo e não precisava de ardis políticos para sobreviver.

Estamos em plena estação de caprichos, tal como os dos finórios que nos saíram na rifa. Uns “melros” imprevisíveis mas excelentes cantadeiros.

Com toda a franqueza, só os de bico amarelo nunca nos desiludiram.

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