SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 19:22

Na Páscoa, a reler Kierkegaard

Numa capa que ficou famosa em 1968, a “Time” perguntava na edição de 8 de Abril se Deus tinha morrido: “Is God Dead?”. Em 1969, no dia a seguir ao Natal, a mesma revista questionava se Deus não teria regressado (“Is God Coming Back to Life?”). Sinais dos tempos ou pressentimento do que iria acontecer?

Os leitores devem ter notado que, por vezes, saímos do reco-reco habitual para enveredar pelo campo da introspecção. Com efeito, acreditamos que cada homem ou mulher tem o seu mundo e nele efectua uma viagem. Como qualquer peregrinação, também toda a existência tem um princípio e um fim. Como um rio que desagua no mar.

A literatura ajuda-nos a interpretar esta caminhada. Há romances que as pessoas instruídas devem conhecer, quiçá no estilo de “Crime e Castigo”, “Anna Karenina” e tantos outros que dissecam a condição humana.

Para muitos clássicos russos, Dostoyevsky e Tolstoi servem de exemplo, é deus que dá sentido à vida. Não são raros os grandes pensadores que se debruçam sobre esta questão, pois a cultura nasce da existência e, por seu turno, ela ajuda a viver.

Ontem, estávamos a tentar agendar uma defesa de tese e um membro do júri desculpou-se por não estar disponível durante uma semana. Ia celebrar o Passover (Páscoa hebraica) com familiares que vivem nos Estados Unidos. E cogitámos nós: como é extraordinário que colegas judeus tomem tão a sério as comemorações da fé.

Por coincidência, estávamos a buscar espaço para uns livros que tínhamos encomendado, quando deparámos com uns velhos volumes esquecidos no topo de uma estante pouco utilizada. Eram de Søren Kierkegaard, um filósofo que nos obrigaram a ler noutra fase da nossa formação universitária.

Há muitos anos que não o líamos, e por o seu bicentenário ter sido festejado em Dezembro, julgámos oportuno passar as breves férias da primavera em companhia deste dinamarquês nascido em 1813. Para compreender a razão da sua actualidade será fundamental reconhecer a qualidade dos seus textos e o facto de, como se vem descobrindo, haver um aumento de interesse em tudo o que está relacionado com manifestações religiosas.

Kierkegaard tocou diversas teclas (teologia, poesia, literatura, psicologia) e foi um dos pioneiros do existencialismo, uma corrente filosófica que alcançou uma determinada hegemonia em meados do século passado. De facto, os jovens torrejanos da década de sessenta julgavam que era de um certo requinte autoproclamarem-se existencialistas. Em resumo, defendiam que era o individuo que dava significado à vida, ou seja a existência precedia a essência.

Em Torres Novas, porém, estas ideias tinham origem nas leituras de Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus. Ainda hoje admitimos que estes autores deixaram marcas nos cérebros de alguns conterrâneos. Recordamos ter ouvido falar do livro “L’existentialisme est un humanisme” numa aula de filosofia. Se a memória não nos atraiçoa, era o Padre Miranda quem nos explicava o que estes intelectuais deviam a Heidegger e Gabriel Marcel.

Mas voltemos ao filósofo de Copenhaga, um ser deprimido e melancólico que usou a educação cristã e luterana para combater a depressão. Segundo ele dizia, a vida divide-se em três períodos: divertimento e distracção, moral e dever, religião e fé.

Revela que a religião assenta na fé e dá como exemplo Abraão na Bíblia, quando Deus pede para sacrificar o filho Isaac e Abraão estava pronto para obedecer. Kierkegaard defende que a fé pode justificar os actos e é de lá que vem a importância destas ideias na sociedade contemporânea.

Contudo, já no outono da vida, o filósofo começou a censurar o cristianismo do seu tempo. Como filósofo da religião, Kierkegaard continuará a ser uma referência crítica por bastantes anos.

Com este dinamarquês pelo meio, acreditamos que há algo em comum entre o argentino Bergoglio — Papa Franciscus—e…o russo Tolstoi. Trataremos desse tema noutra oportunidade.

Aos cristãos e judeus, devotos e incréus, desejamos uma Páscoa Feliz!

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