SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 04:38

A emigração jovem na dança da realidade

São aos milhares os portugueses, sobretudo jovens com habilitações superiores, que não vêem um futuro promissor na terra onde nasceram. Em boa hora o “Jornal Torrejano” começou a entrevistá-los. Quase todas as semanas, confirmam-se hipóteses que tínhamos formulado num livro publicado em 1979. Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes.

Há hoje cerca de cinco milhões de compatriotas no estrangeiro e o êxodo tornou-se, de novo, motivo para conversa fiada e mina para as finanças. O sector público tem montões de gente a viver à custa de quem saiu para ganhar o pão de cada dia e é inegável que vem aumentando, nos últimos anos, a percentagem dos “expulsos”.

Constata-se que, seja qual for o partido no poder, gosta de receber os aforros dos emigrantes— três mil milhões de euros em 1913!—dando-lhes muitíssimo pouco em troca. Apesar desta avultada contribuição, os poderes públicos continuam a trata-los como cidadãos de segunda.

Tal como no tempo da outra senhora, “os dados do Boletim Estatístico divulgados pelo Banco de Portugal mostram que os trabalhadores portugueses que residem em França continuam a ser os que enviam mais dinheiro, tendo remetido para além de 894 milhões de euros no ano passado […]. Em segundo lugar na lista dos que mais dinheiro enviam está a Suíça, de onde foram enviados 738 milhões de euros em 2013” (“Público” 25.03.2014, p.23).

Perde o país e perdem os contribuintes. Esta exportação tem um custo duplo: capital humano que se vai e a resultante diminuição do desenvolvimento. Mais as despesas do Estado com a sua formação. Ganham os emigrantes e as sociedades de acolhimento.

Quem se expatria encontra mais oportunidades, é frequentemente tratado com mais respeito e aufere salários mais elevados. E, falando de dinheiro, cumpre recomendar que não se precipitem a enviá-lo para Portugal. Os mesmos troca-tintas que fizeram o país entrar em falência acabarão por vos comer vivos. Não é só a banca, mas também o fisco.

Já se passaram dois anos, o semanário “Mundo Português” referia-se a esta questão nos seguintes termos:” Perante a bancarrota das finanças nacionais e a vulnerabilidade crescente da banca nacional, os portugueses começaram a questionar a segurança das poupanças depositadas em Portugal. Oficialmente, a Associação de Bancos garante que os depósitos estão seguros pelo Fundo de Garantia, gerido pelo Banco de Portugal e que garante o máximo de 100,000 euros por depositante e instituição. Andam a encorajar os emigrantes a enviarem mais divisas para ajudar, como no passado, a economia nacional” (15.11.2011, p. 24).

Para cúmulo, pode acontecer uma solução no estilo Chipre e lá se vão anos de sacrifício para o boneco. Nunca se devem esquecer que ministérios, parlamento e autarquias estão recheados de intrujões. Pensem como alguns obtiveram os canudos, inclusive mestrados de fim-de-semana, com teses sem análise séria nem quadro teórico. Os engenheiros, enfermeiras, gestores, que não obtiveram diplomas à pressão e não cabem em capelinhas políticas ou lojas maçónicas, esses há muito que mandaram esta gentinha pentear macacos. Milhares de jovens competentes descobriram colocações interessantes em mercados de trabalho exigentes (Reino-Unido, Alemanha, Holanda, Estados Unidos, Canadá, etc.). Hospitais britânicos e alemães têm razões de sobra para andarem por aqui a recrutar, por exemplo, enfermeiras, enfermeiros e outros profissionais da saúde.

Embora Portugal também não tenha deixado de exportar mão-de-obra sem especialização, a percentagem de “cérebros” que estão a sair é inadmissível numa sociedade ainda na cauda da Europa. Bastantes destas formações são imprescindíveis para que possamos ultrapassar a alhada em que nos meteram. Saem os mais ambiciosos e capazes. Um bom número dos que ficam não é bem assim. Para nossa desventura, são estes que conseguem colocações permanentes no sector público, em particular no governo central, nas empresas municipais e nas câmaras.

Os (des)governantes, peritos na arte de bem cavalgar toda a sela e na de palrar sobre a liberdade, deviam aprender que, com embustes, arranjaram o almoço, mas os emigrantes não lhes vão dar o jantar.

Como cantava Janis Joplin, sabem que «freedom is just another word for nothing else to lose» (a liberdade é só outra palavra para dizer que não resta mais nada a perder).

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