SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 22:28

Fases da vida na celebração dos bons

O mês de Janeiro deve o seu nome a um deus romano com duas faces. Jano vê a qualquer momento o passado e o futuro, as saídas e as entradas. É ele que nos sugeriu olhar 2013 em retrospectiva e tentar prever como pode ser 2014.

Com o virar do calendário, o início de um novo ano faz-nos sentir mais idosos. Não por termos 969 anos como o patriarca Matusalém, avô do Noé, pois ainda faltam umas décadas para que festejemos o centésimo aniversário. Na verdade, nunca desapareceu do nosso horizonte a sensação do correr do tempo. É natural que tenhamos ajustado a forma de pensar, o relacionamento com os outros e até a maneira de vestir.

Reparamos que temos colegas que recusam aceitar o facto de já não terem quarenta anos. As mulheres fazem tratamentos com botox e operações plásticas, crendo que assim não perderão o frescor da mocidade. No que toca aos homens, a moda do crânio rapado à Yul Brynner resolveu o problema dos calvos.

A maneira de falar no estilo da garotada é igualmente sintomático desta maleita. Também cometemos esta falta. Há trinta anos que saudamos por “jeune homme” um funcionário da instituição onde trabalhamos. Trata-nos com a mesma fórmula e ambos consideramos esta reciprocidade como um privilégio entre amigos.

Até data recente, distinguiam-se as diferentes fases da vida com os chamados “ritos de passagem”. Ia-se às sortes, logo vinha o casamento, a maturidade, a meia-idade e, por fim, o enterro. No presente, há quem quase resvale da pujança adolescente para o branquear dos cabelos sem dar por isso.

Recordamos um filme clássico de Frank Capra (“Horizonte Perdido”, 1937). Num ambiente místico, o protagonista retira a sua namorada do vale encantado de Shangri-La, onde a juventude é eterna. Contudo, na viagem de regresso ao mundo real, a jovem torna-se adulta e envelhece. Depois vêm a senectude e a morte.

Quando lemos que a cirurgia estética descobriu um filão de ouro disfarçando as marcas físicas do envelhecimento, vem-nos à mente Shangri-La e a realidade do que é inevitável. De facto, as ciências médicas conseguem efectuar algumas reparações e, em consequência disso, a percepção da idade está a ficar mais vaga.

No meio há de tudo: imaturidade e ignorância, carunchos alegres e existências sossegadas. Adia-se deste modo o descompasso inexorável.

Estávamos nestas ruminações, quando chegaram mensagens de ex-alunos dos Professores Silva Paiva e Oliveira. Desolados, comunicavam o falecimento da Amélia Cabeleira, esposa do Jorge Pinheiro. E, sem descortinar o porquê, pensámos de imediato em pares que ficaram célebres por serem cantores excepcionais e que se ajudavam mutuamente quando apareciam no ecrã: Judy Garland e Vincent Minnelli, Sonny e Cher.

Também o casal Amélia-Jorge se distinguia pelo talento. Por isso os homenageamos aqui. Deram muito à comunidade torrejana. Desde bastante novos, partilharam com o cantinho onde nasceram o melhor dos seus dons. Todos ficámos mais ricos com esta generosa oferta. Nestes desventurados momentos, resta ao Jorge continuar esse percurso. Os seus numerosos amigos, admiradores e antigos companheiros de escola não lhe regatearão aplausos.

Temos uma vaga ideia de ter ouvido alguém dizer que, além dos “lobos” e dos “cordeiros” havia uma terceira categoria de pessoas: as “águias”. Sim, estamos perante um casal de águias a voarem alto na música, na escrita e na arte.

Na caminhada matinal, mirámos o rio com a superfície gelada mas com água a circular por baixo da capa branca. E pensámos que a vida é como o seu leito sinuoso. Dá umas curvas, porém segue para o destino. A reflexão leva-nos a concluir que a existência é uma forma de vagabundagem bem temperada por emoções e amizades. Com os seus altos e baixos, como é costume dizer.

Para o Jorge e para os filhos, um afectuoso abraço. Compartilhamos a vossa tristeza.

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