SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 13:21

Guatemala — A Propósito dos Maias

Leccionamos uma cadeira sobre os povos autóctones das Américas. Cobrimos em particular grupos do Leste do Canadá e, atendendo aos interesses dos discentes, examinamos em pormenor a Confederação Iroquesa.

Para comparação, analisamos também alguns aspectos das grandes civilizações do Novo Mundo que, como sabemos, tinham atingido elevados padrões culturais antes das “descobertas” europeias. Optamos com frequência pelos Astecas, com referências aos Toltecas, Olmecas e Maias.

Na edição de 10 de Janeiro, o tema destes apontamentos foi Belize. Mencionámos a estadia num “jungle lodge” e a visita às ruínas de Tikal, uma célebre cidade-estado maia, na actual República da Guatemala. Pois retornemos ao mesmo assunto.

Sem se saber como, propagou-se a ideia dos Maias terem desaparecido como povo. Essa opinião terá tido origem nas abundantes ruínas que se encontram na América Central. Contudo, se esta cultura decaiu no século IX, os seus descendentes ainda se concentram nalgumas regiões.

Tratava-se de uma sociedade bastante hierarquizada. Estava dividida em camadas distintas: nobres, artesãos, mercadores, camponeses e escravos. Assim, é fácil compreender que a luta de classes esteja na base da sua decadência. Tão-pouco se devem ignorar as pressões demográficas, as epidemias e as alterações ecológicas que constituem outros factores responsáveis pelo declínio.

Arqueólogos e antropólogos explicam que a desaparição deste império se deve ao facto de os soberanos não terem conseguido manter a unidade territorial nem conquistar novos mercados. Gerações sucederam-se a outras gerações e, na actualidade, três milhões de Maias estão distribuídos pelos territórios ancestrais, sobretudos na Guatemala, no México meridional, nas Honduras e, como indicámos na semana passada, em Belize.

Nas veias da nação guatemalteca corre sobretudo sangue “índio”. Cerca de 40% são Maias e a quase totalidade do resto são Ladinos (mestiços). A percentagem de cidadãos de origem europeia é mínima.

Além de uma rica herança histórica, este povo tem-se destacado na cena internacional. Esqueçamos por uns momentos as guerrilhas para relembrar dois paladinos dos direitos humanos e do combate às ditaduras: Miguel Ángel Astúrias, Prémio Nobel da Literatura (1967) e Rigoberta Menchú, Prémio Nobel da Paz (1992).

No “lodge” em que ficámos alojados, despertámos cedo. Os alvores do dia vieram acompanhados pelo coro de uma variedade de aves. Não faltavam papagaios, araras e tucanos e, neste concerto, sobressaiam os compassos vivos dos macacos “aullador” (macaco barbado) e dos “monos araña” (macaco aranha). Pouco a pouco, os acordes do coro e da orquestra foram-se abafando pelo zunzum de milhões de insectos. No topo das árvores, espreitava o astro-rei.

Partilhámos a mesa do pequeno-almoço com um casal de advogados já idosos. Tentámos levar a conversa para o ex-monopólio da exportação de bananas pela United Fruit Company, agora transvertida em Chiquita Brands. Em seguida, trocámos impressões sobre os problemas que martirizavam a América Central: violência, roubos, assaltos à mão armada, assassínios, etc. Concordámos que estas dificuldades residem numa legislação que não se actualizou face aos tremendos desafios gerados pelo tráfico de drogas.

Foi então que ouvimos uma resposta baseada numa erudição hoje rara entre os praticantes de direito. A senhora citou Tacitus em latim: “Corruptissima republicae, plurimae leges”. E o marido traduziu de imediato: quanto mais corruptos são os estados, mais leis têm.

A civilização maia era gerida por códigos legais. Também não falta legislação em abundância neste país que, como dizem, está a ir de Guate”mala”(má) a Guate”peor”(pior).

Lembramo-nos da fumigação obrigatória para desinfectar as rodas dos veículos que atravessam a fronteira, vindos de Belize. E da taxa que a acompanha. A Lei é que manda. Porém, com uma nota de 5 fica tudo resolvido.

Em Tikal, também cobram taxas acompanhadas de um sem-número de proibições. Em conclusão, resta um legado de monumentos da grande civilização e cremos que, mais tarde ou mais cedo, os herdeiros dos Maias recuperarão a cultura de outrora.

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