SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 15:56

Belize— Para evitar outros temas

Com todo o vagar, levantámo-nos cedo para escrever. No Leste do continente norte-americano, tem havido imensos nevões, chuva gelada — que é ainda pior!— e muito, muito frio. Na capital do Canadá, a noite de Natal foi calma. Idem para a de São Silvestre. Hoje, o céu está escuro. Até Março, teremos mais do mesmo.

Ontem, num jantar de amigos, um deles deu em perorar sobre uma viagem ao Belize, na América Central. Tinha ido passar férias nos recifes de coral das Ambergris, só comparáveis à Grande Barreira de Coral australiana.

Quando visitámos esta pequena nação pela primeira vez, já lá vão bastantes anos, voámos de Miami. Recordamos que, mal tínhamos aterrado em Belize City e começámos de imediato a questionar por que tínhamos escolhido tal destino. Noutra ocasião, entrámos pela estrada de Corozal, vindos do estado mexicano de Quintana Roo.

A “metrópole” mal chega aos 70.000 habitantes, com uma ligeira maioria de “creoles”, descendentes de ex-escravos africanos e piratas britânicos, um terço de “mestizos”, mistura de ameríndios com europeus, e cerca de 10 % de maias. Neste mosaico étnico, também devem ser incluídos os “garífunas” (união de caribenhos com ameríndios) e umas pitadas de indianos, alemães mennonistas e taiwaneses.

A cidade em si não é atraente. Com certeza, não seríamos felizes em semelhante lugar. No seu estilo, quiçá se possa considerar um paraíso para um determinado tipo de pessoa. Excêntricos, toxicodependentes e indivíduos sem eira nem beira.

Apesar de tudo, gostámos da viagem de barco em redor do atol Caulker, quando passámos entre ínsuas de “mangroves” com as raízes à mostra, a luzirem como ouro vermelho na luz dourada caribenha. Uma tarde perfeita no mar das Caraíbas. Vimos tubarões, golfinhos, um manatim (peixe-boi ou vaca-marinha) e tartarugas enormes.

Mais tarde, tomámos a Western Highway em direcção de San Ignacio e Benque Viejo del Carmen, para desfrutar de uns dias num “jungle lodge”, admirar a fauna tropical e ver as ruínas maias de Tikal, na vizinha Guatemala. Fica para outro apontamento.

Não obstante a febre-amarela e o paludismo, os furacões e os maremotos, Belize foi durante gerações a quintessência da pirataria das Caraíbas. Os primeiros ingleses que se instalaram neste canto do mar das Antilhas eram corsários e flibusteiros. Tinham por objectivo assaltar galeões espanhóis.

Uma região onde as fantasias das crianças, encorajadas pela mágica dos livros de piratas, se concretizavam geograficamente. Nos tempos que correm, também está associada ao corso, não do alto mar mas das drogas. O que em “tuga vulgaris” se traduz por “actividades ilegais”.

A TVI informou há meses que Belize é um dos países onde não se regista a presença portuguesa. Tal como Brunei, Djibuti, Fiji, Kiribati, Estados Federados da Micronésia, Nauru, Palau, Tonga, Turquemenistão, Tuvalu e Vanuatu.

Porém, na nossa visita, descobrimos uma ligação entre Portugal e estas paragens. Um certo Barão Bliss que, doente, se aventurou até ao porto de Belize City, onde o seu iate ficou ancorado até falecer. Conta a história que nunca pôs um pé em terra. Contudo deixou quase todos os haveres ao povo que o acolheu.

Quem era o “4th Baron Bliss”, a que acrescentam “ of the Kingdom of Portugal” (do reino de Portugal)? Se nos é permitido especular, deve tratar-se do título nobiliárquico de Barão Barreto, outorgado pelo rei ou “adquirido” de forma misteriosa.

De qualquer modo, está documentado que aportou a 14 de Janeiro de 1926 e que, decorridos dois meses, faleceu a bordo. Embora aqui tenha passado pouco tempo, gostou tanto que resolveu legar uma verdadeira fortuna às então Honduras Britânicas.

Na avenida marginal, que tem igualmente o nome dele, sobressai o edifício do Baron Bliss Institute, onde estão o museu, a biblioteca, uma galeria de arte e um auditório. Foi com o dinheiro da Fundação Bliss que se construíram escolas de enfermagem, um farol, centros de saúde, bibliotecas, o sistema público de distribuição de água a domicílio, os paços do concelho de Corozal e as infra-estruturas de Belmopan (a capital com cerca de 20.000 habitantes).

Os belizenhos festejam o Gulbenkian lá do sítio, com uma regata anual em sua honra, sempre a 9 de Março. Este feriado, denominado Dia dos Heróis Nacionais e dos Benfeitores, é o segundo mais importante na agenda local. Apenas superado pelo Dia da Independência (21 de Setembro).

Ao princípio, tencionávamos falar dos barões e baronetes responsáveis pelo descalabro português, a nível nacional e autárquico. Veio a calhar seguirmos o conselho do poeta Horácio: “carpe diem”. Como milhões de compatriotas, resolvemos fazer uma pausa e aproveitar do presente. Que o amanhã ninguém sabe como será. Excepto no que toca à tretalândia política.

Para os portugueses que (ainda) não emigraram, recomendamos que vão sonhando. Por muito que custe a crer, até no Belize se vive melhor.

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