SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 15:24

Neve de fins de Novembro

Apesar do calendário indicar que o Inverno só começa no dia 21 de Dezembro, as temperaturas já rodaram pelos dez negativos e a neve fez as primeiras aparições.

Falemos então do tempo. Até ver, parece ser um dos temas que, em Portugal, não desencadeia grandes tormentas. Há bastantes anos, em Indianápolis, tivemos uma professora de literatura inglesa que era grande admiradora de Robert Burns. Por coincidência, foi por esta altura do ano que estudámos esse poeta. Defendia que Novembro é um mês difícil. É recordação do verão e expectativa da invernada. Do Maio galante e do Julho festivo só restam as memórias. Com efeito, o frio é excessivo para passar muito tempo fora de casa e é demasiado cedo para hibernar.

Os agricultores colheram os frutos da terra, as árvores despiram-se das folhas e, na melhor das hipóteses, o máximo que podemos esperar é um diazito ensolarado antes do inverno se fixar definitivamente por estas paragens.

Temos uma relação estranha com o décimo-primeiro mês do calendário. Dos doze, é o de que gostamos menos e é fácil compor uma lista para justificar tal aversão: céus pardos, humidade, dias pequenos e nudez da natureza. Em geral, ficamo-nos pelos lamentos.

Tínhamos decidido alterar esta atitude e, após uns momentos de reflexão, resolvemos encontrar uma cura para a época borralhenta. Começámos por pendurar as bicicletas na garagem. Em seguida, fomos desempacotar as botas forradas a feltro, as luvas de esqui, o cachecol de metro e meio, a roupa interior térmica e o gorro, que parece saído de um filme sobre o ex-exército soviético nos confins da Sibéria.

Assim equipados, fomos dar um passeio ao longo do rio em vias de congelação. Continua porém a animação em redor, visto que bandos de patos e gansos selvagens ainda se movimentam nos recantos em que a água não gelou. Estão a preparar-se para prosseguir viagem em direcção ao sul.

Antes do regresso ao aconchego da casa, comprámos um arranjo de coníferas com bagas vermelhas para decorar o portão do jardim. Fomos à loja dos vinhos escolher uma garrafa de Dão e, quase ao lado, fornecemo-nos de excelentes queijos artesanais de que tanto o Ontário como o Quebeque se orgulham.

Quando o mercúrio desce na escala do termómetro, não há nada melhor para aquecer as tripas do que uma sopinha à maneira. Resolvemos preparar uma “bisque” de abóbora com caril. É ao mesmo tempo doce e cremosa; temperada de caril e curcuma para atiçar as papilas gustativas. Com um golinho de tinto robusto, uns nacos de queijo, umas lascas de “prosciutto” de Parma e, no fim, uma fatia de bolo de nozes à torrejana, é fácil esquecer os flocos miudinhos e irritantes que não param de acompanhar o vento do norte. Sublinhe-se que, aqui, esta direcção aponta para o Árctico.

Com as chamas a crepitarem na lareira, aprontamos a camara fotográfica e idealizamos as imagens que tencionamos obter. Lá mais para Janeiro, teremos milhares de patinadores no canal, ramos de árvores curvados sob o peso da neve, festivais de estátuas no gelo e pássaros nos comedouros do quintal. Talvez o contraste do penacho de fumo da chaminé a esbater-se na alvura do meio ambiente também possa servir de enquadramento para uma boa foto.

Trata-se de uma bela ocasião para ler poesia. Temos connosco um livro de Albano Martins com poemas de Matsuo Bashô, o clássico japonês do século XVII, e recordamos um haiku que mais parece uma pintura minimalista: “Solidão invernal // Num mundo unicolor, // o som do vento”.

Na edição de 18 de Fevereiro de 1983, podia ver-se, logo na primeira página d’ O Almonda, uma fotografia do centro de Torres Novas coberto de neve. Não seria muito poético, mas, para quem teve essa experiência, deu para sonhar. Passados uns anos, houve outro nevão. Por coincidência, encontrávamo-nos em Cascais. Quase não demos por ele.

Que a geada não vos enregele os ossos, são os nossos votos para as derradeiras semanas de 2013.

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