SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 03:44

Fluxo e refluxo das marés da vida

Nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, vivia-se em Torres Novas a ritmo pausado. Havia quem aguardasse a distribuição do correio duas vezes ao dia e a chegada, via Entroncamento, dos diários lisboetas. À beira do Almonda, viam-se mulheres a lavar roupa e a esfera social tinha por centro quer os cafés quer as funções da igreja. A calma dominava, o sossego era total.

As crianças eram acarinhadas e os meninos deleitavam-se com os primeiros frutos de cada da estação. Regalavam-se com figos, romãs e dióspiros. Na generalidade, reinava na vila uma inocente bem-aventurança.

Um dia-a-dia quase bíblico. Tal como imaginado no Antigo Testamento, quando se lê: “As ruas da cidade se encherão de meninos e meninas a brincar” (Zacarias 8:5).

O profeta pode ter idealizado uma Nova Jerusalém repleta de crianças. No entanto, o cenário não é o mesmo e, no mundo actual, um bando de catraios a vaguear pelas ruas será por certo alvo de intervenção dos serviços sociais e dos agentes da autoridade. Até pode acontecer que, nas nações mais civilizadas, os pais sejam chamados à ordem.

Nos tempos que correm, sejam as crianças de famílias ricas, pobres ou remediadas, habitando na cidade ou em bairros periféricos, vivem mais isoladas…a olhar para um ecrã. Controlados e ocupados com um sem número de actividade estruturadas, os miúdos já não circulam livremente. Passam uma grande parte dos dias, fechados em casa, na escola ou em programas extracurriculares. É óbvio que tudo isto terá uma explicação. O que é muito triste é estarem a desaparecer da vista do público.

Convidamos o leitor a comparar a infância de outras épocas com a actual. Bastantes mudanças foram indiscutivelmente positivas, mas como explicar a inesperada alteração do relacionamento que ligava a criança ao espaço público?

Os leitores da nossa geração lembrar-se-ão como se ouviam os gritos das brincadeiras e correrias em que se envolvia a garotada das diferentes zonas de Torres Novas. Jogava-se sobretudo futebol, mas também hóquei, servindo neste caso as sargetas por balizas. Recordamos as do canto nordeste da Praça 5 de Outubro, junto à fonte. Recinto onde se efectuavam as “competições olímpicas” que só terminavam quando dava a dor-de-burro aos atletas.

Embora não se tratasse de uma existência paradisíaca, por vezes parece doloroso pensar que jamais conseguiremos retornar a esses tempos.

Tínhamos concluído o rascunho destas linhas quando, ao darmos uma olhadela pelas novidades na biblioteca da universidade, deparámos com “Marée base, marée haute” (Maré baixa maré alta), o derradeiro livro do filósofo Jean-Bertrand Pontalis, falecido em Janeiro.

Embrenhámo-nos de tal forma na sua leitura que foi por um triz que não nos esquecíamos de enviar para “O Almonda” a colaboração desta semana. Noutra oportunidade, quiçá revenhamos a esta obra póstuma do discípulo de Jean-Paul Sartre que, durante vinte e quatro anos, foi director da célebre “Nouvelle Revue de Psychanalyse”.

Seguindo nas suas pegadas, associámos o tema de hoje com o perpétuo rebentar das ondas no oceano da vida, reflectimos sobre a última frase: “ “la vie s’éloigne, mais elle revient” (a vida afasta-se, mas ela volta”).

Não esqueçamos, porém, que a peregrinação humana nem sempre é linear.

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