SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:53

Pêras bêbedas, cidadãos inebriados

Despertou-nos a atenção o título de uma notícia vinda a lume no “Público” (2.11.2013, p.9): “Crise, 28% dos portugueses cortam bens essenciais”. Basta citar o primeiro parágrafo para se compreender o teor da mesma. “Quase três em cada dez pessoas inquiridas num estudo da Direcção-Geral da Saúde (DGS) assumiram ter deixado de consumir algum alimento considerado essencial por dificuldades económicas”.

E logo pensámos nas remunerações e mordomias de parlamentares e autarcas, nas faraónicas reformas de Mário Soares (€ 500.000 anuais, fora a Fundação dele) e Jorge Sampaio (€ 435.000, além da Fundação em Guimarães). Isto numa economia do faz-de-conta. Um ultraje a milhões de contribuintes!

Ninguém se recorda da nação se ter encontrado em semelhante estado de depressão, desespero e tristeza como se verifica na actualidade. Claro que a procissão ainda só vai no adro. Ou talvez nem sequer tenha saído da igreja. E, nesta ordem de ideias, vem-nos à memória uma frase proferida por Al Jolson, em “The Jazz Singer” (1927), o primeiro filme com som sincronizado: “You ain’t heard nothing yet”. Pode-se traduzir livremente por “vocês ainda não viram nada”. Por outras palavras, nem imaginam o que vos espera. Se este rectângulo no extremo ocidental da Europa sempre foi um país adiado, agora tornou-se num país sem futuro.

Para evitar divagações negativas, decidimos ir fazer as compras no supermercado. Na zona das frutas, fomos direitinho às pêras Rocha que, diga-se a verdade, são um orgulho para qualquer português. Os nossos produtores competem a nível internacional com o que há de melhor. Quase um quarto de milhão de toneladas, com uma forte parcela exportada para mercados exigentes como é o caso do Canadá, Inglaterra, Alemanha, França, etc.

Falemos pois destes frutos. Ao lado das Rocha, havia as habituais Bosc, Bartlett, Anjou e Nashi. Estas últimas são igualmente conhecidas por pêras asiáticas e assemelham-se a maçãs. Por estar na época, também havia à venda as pequenas Seckels que fazem lembrar os “pêros de São João” da nossa juventude. Notámos a ausência das Packham que se desenvolveram na Austrália, mas hoje, aqui como em Portugal, são importadas sobretudo da África do Sul e da Argentina. E por virem do hemisfério sul, aparecem noutro período do ano.

Os especialistas nesta matéria afirmam que as pereiras, da mesma forma que as macieiras, são as árvores de fruto mais comuns oriundas dos continentes europeu e asiático. Embora os clássicos gregos e latinos a elas se tenham referido, é apenas nos meados do século XVIII que horticultores de França e da Flandres conseguem seleccionar as espécies com polpa mole e doce.

Trouxemos para casa uma dúzia de pêras lusas e resolvemos preparar algumas para o almoço. Optámos pela simplicidade. Para entrada, comemo-las com queijo das ilhas e camembert. Contudo, a verdadeira razão de ser desta compra foi embebedá-las em vinho tinto, grãos de pimenta e canela para, em seguida, as servir à sobremesa.

Quem tiver euros em abundância, pode coroar o repasto com um cálice da afamada “poire William”. Quem como nós não vá muito em aguardentes e outros álcoois brancos, pode consolar-se com um copo de “perry”. O que se vende aqui vem do País de Gales e ou do oeste de Inglaterra. Trata-se de uma cidra feita de pêras. Na Normandia, chamam-lhe “poiré”.

A propósito, existe um ditado francês que diz: “poire bouillie sauve la vie” (a pêra cozida conserva a vida). Como temos intenção de viver ainda uns anitos, resolvemos ir comer mais pêras cozidas…em vinho.

Em princípio, vale qualquer zurrapa, desde que se lhe acrescente um pouco de açúcar e casca de limão.

Para os D. Mários, D. Jorges e outros membros da “nobreza socialista e republicana” é que talvez se tenha de usar um “vintage” do Douro. O Zé Povinho, mesmo a cortar na comida, continua inebriado com as façanhas de tão distintos estadistas. Para não variar, paga tributo a tão alteadas excelências.

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