SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 23:14

Índios do passado e do presente

Como um bom número dos assinantes deste semanário, acreditamos que um dia sem ler uns capítulos de livro ou uma revista é um dia perdido. Fazemos parte de uma geração que, ao entrar numa livraria, pega nos livros expostos e lê com atenção o que está escrito na capa e na contracapa. Quiçá na esperança de encontrar uma obra que nos dê prazer.

Tendo isso em vista, desenvolvemos um sistema porventura discutível mas eficaz. Em geral, ignoramos os livros com mais de três centenas de páginas. Há autores que se esquecem que as horas de lazer disponíveis para a leitura são bastante limitadas na actualidade. Tampouco caímos no logro dos grafismos chamativos, visto que nem tudo o que luz é ouro. Os escaparates das livrarias estão repletos de pechisbeque.

Isto não significa que tenhamos sido sempre assim nem que a nossa presente metodologia seja aleatória. Nos tempos da nossa infância e adolescência, se nos é lícito dizer, não havia livrarias em Torres Novas. Os livros vendiam-se nalgumas papelarias, em tabacarias e inclusive em mercearias.

Descobrimos alguns autores por acaso. Recordamos “O Último dos Mohicanos”, de James Fenimore Cooper. Foi comprado numa das duas tabacarias que existiam junto ao Largo da Botica. É possível que ainda se encontre nalgum recanto do sótão familiar ou na arrecadação em Cascais.

Embora difícil de localizar, este volume continua vivo na nossa memória. Tratava-se de uma adaptação para jovens, profusamente ilustrada com imagens de índios. Se a memória não falha, era de uma colecção da Portugália, ou talvez da Bertrand. Mal sabíamos então que também nós viríamos a publicar trabalhos sobre os povos autóctones do Novo Mundo, que passaríamos mais de três décadas a leccionar a cadeira onde se estudam estas culturas. Fascínio esse que deve ter resultado da referida leitura, quando éramos mais moços.

Lembramo-nos de um outro volume: “Pocahontas, a Princesa indiana”, título que criou uma certa confusão no nosso espírito. De facto, a princesa não era “indiana”, mas sim “índia”. Dada a tenra idade e a ignorância da história americana, não compreendemos nada. Persistentes como sempre, seguimos até ao fim.

Esta biografia ficou famosa desde que a companhia Walt Disney resolveu realizar um belo filme animado com o mesmo nome. Quem era esta princesa? Como é que Hollywood a representa em 1995?

Era a filha preferida de um importante chefe dos Powhatans. Como as tribos são matrilineares, a pequena foi viver com a linhagem da mãe. Em quase todas as culturas algonquinas, os homens caçavam e as mulheres cuidavam dos campos e preparavam os alimentos.

Em 1607, os ingleses construíram um forte nas margens do rio James (Virgínia) e um guerreiro powhatan capturou o capitão John Smith que foi levado à presença do pai de Pocahontas. Este aprontava-se para o decapitar, quando a princesa interveio a seu favor. Aqui começa a narrativa.

Da mesma forma, acredita-se que era tradição destes povos partilhar a comida. Os manuais escolares explicam que foram eles que alimentaram os primeiros brancos que desembarcaram na América do Norte.

Claro que é o romance entre a rapariga ameríndia e o capitão britânico que cativou milhões de espectadores. É a fusão da realidade com o mito que tranforma a história de Pocahontas num símbolo de paz entre colonizadores e colonizados.

A motivação não será apenas de sublinhar a importância da confraternização entre europeus e nativos, pois sabemos que as empresas cinematográficas existem para pagar dividendos aos accionistas. E se o público não gosta do filme, evapora-se um investimento de centenas de milhões de dólares.

Vem a talhe de foice mencionar que, este ano, temos quase uma vintena de estudantes de origem africana inscritos nesta disciplina. Uma percentagem superior à do costume. Ora uma aluna nascida num país da África Oriental, resolveu redigir uma dissertação sobre as representações fílmicas dos primeiros habitantes deste continente.

Gostámos da análise. Aprendemos com a sua crítica e, ao discutir o ensaio, equiparámos esta produção hollywoodesca com outra de imenso sucesso: “The Lion King”. É óbvio que também se enquadra no presente interesse pelo multiculturalismo.

O trabalho de curso obteve uma excelente nota. Apesar do nosso vocabulário de suaíli ser reduzidíssimo, concluímos com um “hakuna matata” na língua da investigadora. Milhões de crianças e adultos sabem que se traduz por “não te preocupes”. Todos viram o Rei Lião e memorizaram as composições musicais do Walt Disney.

Da mesma forma que nós lemos “O Último dos Mohicanos” ou a Princesa Pocahontas, nas edições a baixo preço da Bertrand ou da Portugália.

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