SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:38

Posturas e Imposturas da Parvónia

Esperamos que os leitores, logo que pressintam o tema de hoje, não decidam mudar de página. Com as árvores coloridas pelo outono, impunha-se à primeira vista comentar os resultados das últimas eleições. Não obstante o brilharete da sucessão, sobressai a perda de confiança por parte de uma percentagem significativa dos eleitores. Em comparação com 2009, o partido do ex-presidente da câmara agora presidente da assembleia municipal, perdeu um vereador e a preferência de quase três mil votantes, uma descida de 9%. Começou o pôr-do-sol e as sombras alongam-se no vale de lágrimas das finanças autárquicas. Ponto final e mudemos de assunto.

Em Maio, estávamos muito sossegados na casa em Cascais, quando alguém nos desafiou para ir ao Teatro Municipal Mirita Casimiro e ver “Viagem à Roda da Parvónia”, peça escrita em 1879 por Guilherme de Azevedo e Guerra Junqueiro. Foi posta em cena por Carlos Avilez. Ignorávamos a existência desta comédia.  Saímos de lá com a confirmação de que a crítica que se fazia no país de então, ainda é válida nos tempos que correm.

Observemos a verdadeira face da situação. Fomos examinar fotografias daqui, dali e dacolá, e perguntámos qual seria a significação do semblante do chefe? Sem o fulgor habitual, parece que perdeu o pio. Nem os botões do casaco conseguem conter a inexorável dilatação abdominal.

O conjunto funciona em obediência a maquinismos ocultos. Vimos vídeos no “YouTube”, onde aponta o dedo. Parece o Tio Sam a exigir mais voluntários para a guerra: “I want you!”. Nem as forças armadas teriam tanto sucesso na doutrinação dos combatentes.

Quiçá pretenda obter algo que não está seguro de ter. Será falta de chá? Faz lembrar os oradores da época da outra senhora: “façam o vosso dever, votem em mim”.

Move-se da esquerda para a direita, como outrora caminhou no sentido inverso. Provando, desta forma, que a determinação está a enfraquecer. Não manifesta convicção. Ele bem quer enfatizar alguns pontos, porém os gestos não são adequados.

A gesticulação, própria de feirante em mercado semanal, esvaziou-se de sentido.  Fala noutro tom, mais burocrático e bastante estafado. Nem sequer um sorriso, no estilo do Doutor Salazar. Revelação de uma crise interior? De facto, esta postura transmite a ideia de um homem que se sente cercado, que reage em vez de agir. Estará ressentido por causa da deserção dos camaradas?

Também milhões de franceses estão arrependidos por terem votado em François Hollande. Já não suportavam o estilo “bling-bling” de Nicolas Sarkozy. Esta onomatopeia lembra o tilintar das jóias e põe em relevo a exibição de um estilo de vida espalhafatoso. Foi a comunicação social socialista que atribuiu esta etiqueta ao ex-presidente francês. Talvez por ele gostar de se misturar com toda a classe de “vips” e gente com dinheiro.

Qual a razão para recorrer ao “bling-bling” grotesco da política gaulesa? Ora bem, por os nossos políticos sofrerem igualmente da mesma moléstia. E logo nos vêm ao pensamento José Sócrates, conhecido pelo “engenheiro” da Independente, ou o pateta do Relvas. No entanto, é forçoso reconhecer que também as autarquias estão povoadas com fauna deste quilate.

Não ostentam relógios da marca Rolex, todavia circulam em BMWs. Gostam de se fazer fotografar em companhia de presidentes, embaixadores e celebridades que aparecem na televisão. Ou universitários, para se darem ares intelectuais e ver se juntam uma linhazinha ao currículo. Especialmente se forem “irmãos da mesma loja”.

Tudo isto se encaixa no culto patológico da imagem, com comunicados produzidos em gabinetes presidenciais e publicados na imprensa regional sem indicação da origem.

A imagem assim arquitectada é composta por uma multiplicidade de elementos. Mencionamos, entre outros, o aspecto, as posses, o modo de expressão e o conteúdo dos textos. Não menos importante é a maneira como comportamentos e atitudes são filtrados por quem os divulga.

Desejam transmitir aos cidadãos uma imagem de solidez, de segurança, de vontade e de decisão. Mas, ao analisar este tipo de personagem e as suas tretas, logo ressaltam a superficialidade e a vacuidade do que afirmam. Enfim, “bling-bling” para consumo de papalvos que tudo comem e ainda choram por mais.

Como diz o povo: para quem é, bacalhau basta.

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