SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 20:26

Córdova, muçulmanos, cristãos e judeus

Pelo mundo fora, Andaluzia e Espanha são termos quase sinónimos. Trata-se da maior comunidade autónoma, banhada pelo Mediterrâneo e pelo Atlântico. A superfície é maior do que a de Portugal. Atrai milhões de turistas para admirarem Sevilha, Granada ou Córdova e veranearem nas suas incontáveis praias. Em qualquer vila ou aldeia, é fácil confirmar o confronto entre o passado rico em história e a modernidade, numa simbiose de catolicismo, judaísmo e Islão.

Os andaluzes acreditam que a sua cultura está impregnada de duende, ou seja um indeterminado poder mágico. Se a região está ou não enfeitiçada por mouras encantadas, rabinos sefarditas e guerreiros cristãos não sabemos. Certo, certinho é que o estilo de vida convida à relaxação. O comer é bom e o clima não lhe fica atrás.

Em Maio, tendo isto em mente, decidimos passar uns dias de lazer neste recanto da Ibéria. O objectivo? Rever Córdova, pois desde 1963 que lá não íamos.

Acreditamos que a impressão inicial de uma cidade é importante e, por essa razão, não duvidamos que a melhor maneira de entrar em Córdova é pela estrada velha de Sevilha.

Na primeira estadia que efectuámos nesta ex-capital do Al-Andalus, entrámos pela Porta da fortaleza da Calahorra. Há séculos que ela guarda, no extremo sul, a belíssima ponte romana sobre o Guadalquivir. Contrasta — e de que maneira! — com o Arco do Triunfo que, na outra margem, foi erigido para celebrar a visita de Filipe II em 1570.

Durante o reinado de Abd al-Rahman III (912-961), foi um dos principais centros intelectuais e científicos do Ocidente. Para aqui se dirigia quem procurasse estudar as últimas descobertas da época, por exemplo na matemática, na medicina, ou na produção de papel e vidro.

A cidade, que também já tinha sido sede da administração da Bética romana, transformou-se numa esplendorosa corte com centenas de mesquitas, cinco hospitais, oitenta escolas, banhos públicos, excelentes bibliotecas e universidades. As ruínas de Medina Al-Azhara, a povoação-residência real a oito quilómetros de distância, ainda hoje nos fazem imaginar a magnificência que se tinha deixado de ver na Europa, desde a queda de Roma

No auge do califado, foi uma das metrópoles mais populosas. A acrescentar aos sarracenos, também milhares de judeus e cristãos habitavam em Córdova. Só Constantinopla, Damasco e o Cairo se podiam equiparar.

A mesquita, que também é catedral, continua a ser a alma e o coração da urbe. Se lhe acrescentarmos os numerosos palácios, as igrejas e o castelo, compreende-se que seja um dos lugares mais sedutores do continente.

Além da história e da arquitectura, as artes e as letras marcaram igualmente este centro do saber. Bastará mencionar Séneca, Maimonides, Averróis, Gôngora e o pintor Romero de Torres que estão ligados à cidade. Até Garcia Lorca, no “Cancionero Gitano” se lhe refere uma porção de vezes.

Após demorada visita à Mesquita-Catedral, entrámos na Faculdade de Letras sediada num edifício do Século XVIII. Quis o acaso que tivéssemos ali encontrado uma exposição sobre os hebreus na Andaluzia.

Numa série de painéis, aprendia-se que devido às matanças e conversões forçadas de 1391 e às expulsões de Espanha e Portugal, em 1492 e 1496, quase se tinha extinguido a presença hebraica na Península. O período de menosprezo que daí resultou prolongou-se até aos nossos dias. Só há escassos anos é que ressurgiu o interesse por esta componente das culturas hispânicas.

E abrimos um breve parêntese para recordar que, até ao século XVI, também Torres Novas teve uma destacada comunidade judaica. Foram perseguidos, fugiram e o concelho ficou mais pobre. Como afirmou o Prof. José Hermano Saraiva, num episódio de “Horizontes da Memória”, pouco ou nada se sabe da sua herança na nossa terra. Que pena!

Fomos almoçar num pequeno restaurante perto da Praça de São Miguel e começámos com uma tigelada de “salmorejo”, uma sopa fria típica de Córdova. É semelhante ao gaspacho, mas mais encorpada e sem cebola. Leva bastante azeite. Trata-se de uma mistura de tomate, sal, alho, vinagre, ovo cozido e pão. Algo no género da açorda portuguesa.

Para nossa surpresa, na música ambiental, Paco Ibáñez cantava “Canción de Jinete” de Garcia Loca. Revivemos as aulas de espanhol e o professor a recitar: “Córdoba. Lejana y sola. // Jaca negra, luna grande, // y aceitunas en mi alforja. // Aunque sepa los caminos // yo nunca llegaré a Córdoba”.

Nós chegámos e não hesitaremos em visitá-la de novo.

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