SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 18:51

Newport e a Sinagoga Touro

Nas férias que tiramos sempre no litoral da Nova Inglaterra, além da habitual estadia em Falmouth (Cabo do Bacalhau), este ano resolvemos fazer uma pequena excursão até à cidade de Newport, no vizinho estado de Rhode Island.

Porquê Newport? Antes de mais, por ser um dos locais históricos da costa leste e, em segundo lugar, por desejarmos visitar um testemunho marcante da presença portuguesa neste lado do Atlântico: a Sinagoga Touro.

Por coincidência, lemos no “Público” de hoje um artigo intitulado “Limpeza de sangue”, no qual Francisco Bethencourt começava assim: “Em que medida a noção de limpeza de sangue estruturou a sociedade portuguesa nos séculos XVI-XVIII? […] Permitiu a monopolização dos recursos económicos e políticos por cristãos-velhos em competição contra judeus convertidos e seus descendentes” (26.08.2013, pp. 22-23). É o fado lusitano. Os resultados desta perseguição estão à vista.

Há cerca de três séculos que esta cidade concorrente de Providence constitui uma referência incontornável no comércio, na navegação, na liberdade de culto e na arquitectura. Para bem ou para mal, fazia parte do comércio triangular com vértices nas Caraíbas, na América e em África. Entre outros, importava-se a cana-de-açúcar e o melaço das Antilhas, para serem aqui transformados em rum que, no continente negro, era trocado por escravos.

Na época colonial, Newport era, como Nova Iorque, Filadélfia e Charleston, um dos portos principais. Só Boston os vencia. Por isso, não é de estranhar que ainda existam inúmeros edifícios desse tempo a que devemos acrescentar, em fins do século XIX, as colossais mansões ao longo do mar, nas quais veraneavam os “robber barons” (barões-gatunos) do início da expansão capitalista. Por exemplo, “The Breakers” de Cornelius Vanderbilt II, o magnata dos caminhos-de-ferro ou “The Elms” de Edward Berwind, o rei do carvão da Pensilvânia.

Porém, foi a liberdade de religião que nos trouxe a esta bonita zona do mais pequeno estado americano (3.100 km² e um milhão de habitantes). Foi fundado pelo pastor Roger Williams (1604-1683) e seus correligionários que tinham sido expulsos do Massachusetts pelos Puritanos. A partir de 1639, também se estabeleceram bastantes quakers na região. Pouco depois, em 1658, aportou aqui uma primeira vaga de judeus vindos de Portugal. Eram quinze famílias que já tinham passado pelo Brasil e Suriname. Construíram uma sinagoga e a congregação tomou o nome de “Yeshuat Israel”. Com o decorrer dos anos, os seus membros viriam a ocuparam lugares de relevo na cena local. Tinham influência e eram respeitados por todos.

De tal maneira que, em 1790, quando Rhode Island assina a Constituição e entra na União, foi o então presidente da assembleia judaica portuguesa, Moisés Mendes Seixas, quem fez um célebre discurso na visita de George Washington. Foi a partir desse momento que a liberdade de culto foi reconhecida como um dos elementos de base da vida dos americanos.

É o templo hebraico mais antigo dos Estados Unidos e constitui um óptimo exemplo de arquitectura colonial. Foram os Touro (pai Isaac, filhos Abraão e Judá) que, na primeira década do século XIX, restauraram o edifício e, presentemente, é esse o nome pelo qual é conhecida a sinagoga. Com efeito, a rua tem a mesma designação e é uma das principais artérias do centro urbano.

Perto de três milhões de turistas visitam este famoso burgo oceânico. Quem admira o que ele tem para oferecer compreende a atracção. De facto, é uma das numerosas pérolas no colar deste litoral a que dá sempre prazer regressar. Quanto mais não seja para desfrutar de uns dias de descanso com mar, sol, boa comida e gente acolhedora.

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