SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 18:10

Terceira, a Ilha Lilás

Os portugueses em geral, e os torrejanos não são excepção, já andam indispostos com o que se lê e ouve sobre as eleições municipais. Há quem esteja indignado com o apego de certas personalidades ao poder. A imprensa diária apelida-os de dinossauros. São da escola do “daqui não saio, daqui ninguém me tira”! Reflectem, em palavras ocas e empoladas, a virtualidade do paleio, esquecendo-se que o carnaval acabou e que as máscaras perderam o efeito. Andaram por aí a fazer calotes de bradar aos céus, mas continuam a “obrar”.

Se assim impedem a concretização dos sonhos das próximas gerações, deve haver quem também os impeça de dormir. Quanto a nós, seguiremos a rir. Sem fazer demasiado barulho.

Estávamos neste estado de espirito, quando a arrumação de uns papéis associados a uma recente digressão pelos Açores veio despertar, no subconsciente, o nosso grande apreço pelos compatriotas insulanos.

Planeávamos redigir uns parágrafos sobre esta breve estadia, no entanto outras actividades meteram-se pelo meio. O projecto protelou-se. E não fora o lembrete recebido da redacção d’O Almonda a avisar que esta semana o jornal fechava mais cedo por causa do feriado de 15 de Agosto, quase que seleccionávamos outro tema.

Desta forma, aproveitamos a circunstância para alinhavar à pressa uns parágrafos sobre esta região autónoma que tanto admiramos. Por agora, ficar-nos-emos pela Terceira.

O primeiro nome que lhe deram foi de Jesus Cristo. Há quem esclareça que ficou conhecida por esta designação por lhe ter cabido esse número na progressão do povoamento: Santa Maria, São Miguel, Terceira e por aí adiante, mas também lemos algures que todo o arquipélago foi conhecido por Ilhas Terceiras, durante o início das Descobertas. As Primeiras foram as Canárias, as Segundas a Madeira e Porto Santo.

Por volta de 1975 ou 76, desembarcámos no Porto das Pipas, vindos de São Miguel no “Ponta Delgada”. O velho navio, efectuava nessa altura o serviço de cabotagem.

Tínhamos ido fazer uma comunicação num congresso de estudos açorianos e, de imediato, compreendemos como o povo e as paisagens dessa a ilha eram dignos de uma visita mais prolongada. A beleza natural é deveras extraordinária e as gentes acolhedoras.

Logo no ano seguinte, ficámos um mês. Fizemos muitos amigos, que ainda conservamos, caminhámos por veredas e canadas bordejadas com hortênsias, participámos em touradas à corda, comemos alcatra, roemos alfenins e aprendemos a apreciar polvo assado no forno com malagueta.

Jamais se apagarão da memória a primeira “tourada” na Terra Chã e uma outra em São Mateus, com os aficionados a saltarem do cais para o mar e o touro a segui-los. Vem a propósito a explicação de Vitorino Nemésio, natural da Praia da Vitória: “tourada no sentido de correria de toiro ao longo de um caminho ou num amplo terreiro não vedado, com os movimentos do bicho apenas condicionados pelo emprego de uma longa corda, que se lhe ata ao pescoço ou aos galhos, e que se arrasta, segura à outra ponta por quatro ou seis guardadores de gado bravo, ou pastores”.

Fora da capital, parece que pararam os ponteiros do relógio. Os 58.000 habitantes vivem manifestamente junto à costa, nas cidades de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória. As terras altas do interior, com excelentes pastos, continuam num estado primevo e encontram-se muitas vezes envolvidas por nuvens. Mencionamos, entre outras, a Serra de Santa Bárbara, na parte ocidental, com 1021 metros de altitude, e a Serra do Labaçal, a poucos quilómetros das sedes das freguesias dos Biscoitos e dos Altares.

Os “impérios” de cores garridas ocupam lugares nobres em qualquer aglomerado populacional. Traduzem o fervor que a população tem pelo culto do Senhor Santo Espírito. No domingo de Pentecostes, Dia do Espírito Santo, há procissões por todas as freguesias. Faz lembrar a Meia-Via. Lá estão sempre presentes a coroa, o ceptro e a pombinha branca.

Quiçá esta devoção, que foi obviamente importada do continente, tenha assumido as suas características islenhas devido ao terror das erupções vulcânicas e aos sismos constantes. Contudo, o essencial é o reforço dos laços comunitários. Entre vizinhos e convidados. Não é fácil esquecer as Sopas do Espírito Santo e a massa sovada. A tradição manda que seja tudo acompanhado com o aromático vinho-de-cheiro, embora muitas pessoas prefiram outras libações. Quanto a nós, optamos pelo verdelho da Casa Agrícola da família Brum, dos Biscoitos. Ou a “angelica”, espécie de jerupiga, do mesmo produtor.

A cidade de Angra, património da UNESCO, é com certeza a mais bonita do arquipélago. Aqui nada falta, desde as imensas fortalezas e os imponentes conventos, passando pelo Palácio dos Capitães-Generais e pelas diversas igrejas de estilo renascentista. A construção da fortaleza de São Filipe, que após a restauração veio a chamar-se de São João Baptista, teve início em 1592 e foi, durante bastante tempo, uma das mais vastas dos territórios governados pelos reis espanhóis.

Numa tarde de sol, subimos o Monte Brasil. Por companhia, levámos o “Corsário das ilhas” de Vitorino Nemésio. Logo na contracapa, ele, melhor que qualquer outro conterrâneo, descreve a geografia local: “o litoral acolhedor perfuma-se de murta e de zimbro; a oliveira brava mancha-se de jasmins amarelos. Os jardins das casitas espalhadas em pendor de presépio levantam os seus dragoeiros em flor e os seus escuros barbuzanos. Depois, sobre altos despovoados, estende-se o manto das urzes, dos loureiros e das faias”.

Apesar deste ilustre terceirense ter falecido em 1978, a sua bibliografia continua a ser incontornável para quem deseje estudar a açorianidade.

E, se por aqui passarem, não fiquem pelo Monte Brasil. Façam uma excursão à Mata da Serreta. Quanto mais não seja, para oxigenar os pulmões. Sobretudo, não percam a oportunidade para admirar os céus imensos e o “enorme campo de mar”, no dizer do poeta Álamo de Oliveira. Inventem como poderiam ter sido os primeiros dias da criação do mundo.

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