SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 00:56

A propósito do Ramadão

Estivemos a ler “The Crack-Up”,uma colectânea de ensaios de um dos maiores escritores do Século XX: F. Scott Fitzgerald (1896-1940). Começa com as seguintes palavras: “Of course all life is a process of breaking down” (A vida é, sem dúvida, um processo de demolição).

A memória também é assim. Contudo, por vezes, temos grandes surpresas.

Há muitos anos que subsiste na nossa mente a impressão de uma estampa admirada na parede da loja de enchidos e carne de porco que existia no topo da Calçada António Nunes. Devia ser da família do Governo, nosso colega no velho Colégio de Andrade Corvo.

Tratava-se de uma gravura com a capitulação de Granada. Nela descobrimos Isabel de Castela, Fernando de Aragão e Boabdil, o rei mouro.

Decorridas algumas décadas, foi num livro alemão (“Kunst und Architektur Andalusien” de Brigitte Hintzen-Bohlen) que achámos de novo uma reprodução da referida pintura. O original está no Palácio do Senado Espanhol, em Madrid.

É da autoria de Francisco Pradilla Ortiz (1848-1921) e simboliza o fim do Al-Andalus, após a reconquista pelos cristãos. Era, com certeza, o quadro reproduzido na ilustração que ornamentava a salsicharia do cimo da vila.

Ora bem, a derrota do cristianismo em 711, a vitória de 1492 e o presente aumento demográfico dos muçulmanos na Europa, também nos fazem pensar no “break down”, na demolição da civilização que nos formatou.

Se bem que a história ainda se leccione de forma linear, talvez sejamos em breve forçados a utilizar outros métodos. A natureza humana já não é o que era e, na actualidade, haverá quem aconselhe a optar uma visão circular do mundo. Essa nova metodologia permitiria analisar as mudanças sociais noutra perspectiva.

Os desatentados vão apanhar uma série de “chiliques “. E não estamos a falar na perpetuação de régulos autárquicos com calotes estratosféricos e despesismos vergonhosos. Os cidadãos resmungam, todavia acabam por morder no anzol.

Dar-se-á o verdadeiro “fanico” quando, mais tarde ou mais cedo, tiverem de seguir a vontade de Alá. Em menos de meia dúzia de gerações.

Por estarmos quase no fim do Ramadão, que tem fim na quarta-feira, e por a festa do l’Aïd el-Fitr ser na véspera da distribuição deste semanário, julgámos oportuno tecer uns  comentários sobre o Islão.

As veias e artérias dos torrejanos, como as dos demais portugueses, transportam sangue de diversas origens. Sem dúvida, misturaram-se antepassados cristãos, hebreus e maometanos. Durante uns séculos, foram cristãos. Quando chegaram os mouros, converteram-se ao islamismo. Com a reconquista, metamorfosearam-se em discípulos de Jesus Cristo. A história dos judeus é diferente, porém, em forte percentagem, acaba no mesmo.

A história desvenda muita coisa. Por exemplo, uma determinada maneira de fazer política. Sabemos como alguns autarcas locais passaram por diversos partidos. Como gatos a correrem atrás de bofe, são uns autênticos atletas. Daí, poder-se extrapolar que o povo, em geral, segue por idêntico caminho. De facto, é com demasiada frequência que deparamos com quem não saiba separar os credos políticos dos religiosos. Parece o Médio Oriente.

É estranho, mas enquanto estudante universitário, nunca ninguém nos convidou para partilhar o Advento ou a Quaresma. Os seguidores do profeta Maomé, não perdem nenhuma oportunidade para ensinar aos não crentes como é o Islão. Para além da demografia, haverá outros factores que, pouco a pouco, os transformaram numa força dominante no xadrez internacional.

Eis parte da mensagem que uma colectividade nos enviou neste período: “The month of Ramadan is a special time for Muslims … During this month when the gates of heaven are opened endlessly, fasting and abstinence bring a person closer to God and brings people to spiritual enlightenment” (O mês de Ramadão é especial para os muçulmanos… Durante este mês, quando as portas do céu se abrem eternamente, o jejum e a abstinência aproximam uma pessoa de Deus e trazem bênçãos espirituais). E mais adiante convida colegas, vizinhos ou amigos de outras fés para participarem no jantar do Iftar (quebra do jejum à noite).

O grupo antes mencionado é composto de gente séria. Seria uma ofensa tremenda e uma injustiça irremissível associar os seus membros a qualquer género de violência ou terrorismo.

Começámos e terminamos com F. Scott Fitzgerald. Ele tinha razão ao afirmar que as vidas – e nós acrescentamos as civilizações – estão em evolução constante. Concluímos com uns versos de Musset (1810-1857): “Tout ce qui était n’est plus. Tout ce qui sera n’est pas encore. Ne cherchez pas ailleurs le secret de nos maux” (Tudo o que era deixou de ser. Tudo o que será não é ainda. Não busqueis fora daí o segredo dos nossos males).

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P.S. – Apesar dos textos de António Mário Lopes dos Santos sobre política local nunca terem desaparecido d’O Riachense, foi com prazer que reencontrámos nas páginas d’O Almonda a colaboração deste historiador. O seu contributo tem sido e seguirá sendo marcante para o conhecimento da “torrejanidade”. Haverá quem não goste, mas, na nossa opinião, os seus escritos engradecem este semanário e todo o concelho.

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