SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:19

Indianápolis, cidade de sucesso

Andamos sempre a correr, no entanto é salutar achar umas horas para reflectir. Foi o que fizemos há dias, numa visita a Indianápolis. Passadas algumas décadas, quase no mesmo dia de Julho, deambulámos pelo centro da capital do Estado de Indiana.

Antes de aterrar, ao espreitar pela janela do avião, tínhamos sido surpreendidos com a vista de novos arranha-céus. Mesmo assim, conseguimos identificar o Meridian Circle, um incontornável ponto de referência, o imponente monumento aos mortos da guerra e, ao fundo de uma alameda ajardinada, a biblioteca pública, agora complementada por um complexo todo em vidro harmonizando o moderno com o antigo.

Milhões de norte-americanos não ficaram admirados com a recente falência de Detroit. Embora seja fácil compreender as causas da decadência da metrópole do Michigan (corrupção autárquica, péssima gestão, crime e desemprego), é mais difícil visionar a contracção da população. Há meio século, era de 1,9 milhões. Hoje, 700.000. Felizmente, muitas grandes cidades da América enveredaram por outro caminho.

Do nosso tempo na Universidade de Indiana, recordamos o Professor Raymond Lee, associado ao Gabinete de planificação de Indianápolis, que nos deu diversas cadeiras de geografia. Uma delas foi Geografia Urbana. Punha os alunos no terreno. Estamos a lembrar quando, em grupos de três ou quatro, íamos para diversos bairros, até dos mais perigosos, analisar “in situ” o alojamento, os sistemas de educação e lazer, falar com as pessoas e, para terminar, redigíamos relatórios com a nossa opinião. No fim do semestre, eram apresentados aos demais colegas para discussão.

Este docente era um sonhador. Na década de sessenta, já recomendava soluções que vieram a ser adoptadas e fizeram que, agora, esta seja uma cidade onde dá gosto viver e tenha no turismo uma das principais fontes de emprego.

Há mais de três gerações que as corridas de automóveis atraem turistas. São famosas as da Indy 500, no Motor Speedway. Outras atracções de relevo são os parques e florestas acessíveis a partir da baixa da cidade, incluindo o White River State Park com mais de 100 hectares. Este integra um canal com 3 km e uma pista de 12 km para passeios a pé ou de bicicleta. Dá acesso a cerca de 200 — sim, duzentos!— Restaurantes. E, para a miudagem, o inacreditável Children’s Museum. Sem qualquer dúvida, um dos melhores do mundo.

Os museus melhoraram-se. Não só devido ao enriquecimento dos respectivos acervos, mas igualmente pela criatividade da arquitectura. Por exemplo, o Indiana State Museum e o Eiteljorg, que lhe fica adjacente.

Foi-nos dada a oportunidade de rever os quadros de Rembrandt, Rubens, El Greco, Ribera, Caravaggio, Cranach e Jan Brueghel. E, bem assim, os de Monet e Renoir que nos fascinaram aos dezassete anos. Porém, o maior prazer que tivemos foi olhar de novo o “Boy” de Amedeo Modigliani. Parecia o reencontro com um velho amigo.

A cidade também investiu nos desportos, tanto profissionais como amadores: basebol, basquetebol e futebol. O Victory Field, onde os “Indians” jogam, fica perto do “Circle”. Não tem muros e o espaço é enquadrado pelos altos edifícios circundantes. Como em todo o Midwest, existe localmente uma verdadeira loucura pelo basquetebol. De repente, vieram-nos à memória nomes de atletas da Lawrence Central High School que eram os heróis da estudantada. Alguns obtiveram bolsas para continuarem a jogar em equipas universitárias.

Tampouco podemos esquecer o novíssimo aeroporto. Programado com preocupações ecológicas, a luz é quase toda natural e permite uma vista abrangente do exterior.

Do mesmo modo se explica o sucesso desta concentração urbana com 1,8 milhões de habitantes, a 12ª na lista dos “States”. Decorridos tantos anos, o presente prova que o saudoso Professor Lee sabia do que falava e falava do que sabia.

Nascemos em Torres Novas, mas habitámos noutras terras. Indianápolis foi uma delas. Aqui passámos alguns dos melhores anos da nossa vida. Marcaram-nos para sempre.

Contudo, tal como no título da novela de Thomas Wolfe, “You Can’t Go Home Again”, não podemos regressar à nossa adolescência. Nem à vila do rio Almonda, nem à década de sessenta no Estado de Indiana. Como refúgio, resta-nos apenas o espaço da nostalgia.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados