SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 14:34

Washington, capital dos EUA

Viemos pela primeira vez a Washington no outono de 1964. Em 1965, no regresso à Europa, fomos convidados para uma recepção no jardim da Casa Branca. O presidente era Lyndon B. Johnson, o qual fez uma breve alocução a uma centena de bolseiros estrangeiros. No mesmo dia, o Embaixador de Portugal deu um almoço aos seis portugueses. Apagaram-se da memória muitos pormenores desta recepção. Apenas recordamos que nos serviu frango com arroz e Mateus Rosé.

Decorrido tanto tempo, encontramo-nos de novo nas margens do Potomac, numa das urbes mais influentes do planeta, onde são tomadas decisões que demarcam o bem-estar ou o desassossego de milhões de seres humanos. Também é aqui que a administração estado-unidense põe e dispõe dos impostos pagos pelos cidadãos. Como dizia o humorista Bob Hope: “I love to go to Washington – if only to be near my money.” (“adoro ir a Washington, quanto mais não seja para estar perto do meu dinheiro”). Ou, segundo o filósofo George Santayana: quem esquece como o governo desperdiça dinheiro, está condenado a dar-lhe mais.

Quem passe uns anos sem visitar a capital americana costuma clamar que a cidade já não é o que era. Na verdade, é manifesta a preocupação com a segurança e nota-se que os ataques do 11 de Setembro de 2001 deixaram mazelas no espírito dos habitantes. É notável o número de agentes da ordem a pé, a cavalo e em bicicleta. Paradoxalmente, sentimo-nos seguros. Para entrar nalguns monumentos, até parece que estamos no aeroporto: tira sapatos, tira cinto, detector de metais, etc..

Contudo, e malgrado as transformações, cremos ser mais apropriado falar do que não mudou: o amor à liberdade e o respeito pela cidadania. Qualquer pessoa continua a poder assistir aos debates no Congresso ou às sessões do Supremo Tribunal de Justiça. Ao contrário do que está acontecendo noutros países, aqui os três ramos do poder estão “de jure” e “de facto” separados. A promiscuidade entre justiça e governo, tão comum em Lisboa, seria impensável neste lado do Atlântico.

A importância da democracia respira-se no dia-a-dia e impregna a arquitectura majestosa, em símbolos que reflectem a narrativa desta nação. Comecemos pelo “Mall” que vai do Capitólio ao Monumento a Lincoln, passando pelo obelisco com 163 metros, dedicado ao General George Washington. Nesta zona, também ficam a gigantesca Biblioteca do Congresso e os Arquivos Nacionais, onde se pode admirar a versão original da Constituição. Não muito longe, o monumento a Thomas Jefferson, local de peregrinação para os defensores dos valores que orientam “The Land of the Free”.

Sim, um povo amante da liberdade e da democracia. É fácil observar a aplicação dos “checks and balances” (pesos e contrapesos) que gerem uma federação de cinquenta estados, uns tão poderosos como a Califórnia e o Texas, outros de exígua dimensão como o Connecticut e a Rhode Island.

O Congresso, composto pelo Senado e pela Câmara dos Representantes, tem o poder legislativo. Pequeno ou grande, cada estado tem dois senadores e um número de eleitos na câmara, em proporção directa à população.

Quanto a museus, alguns são dos melhores do mundo. Mencionamos entre outros: National Air and Space Museum, National Museum of African Art, Smithsoninan American Art Museum and National Gallery, National Museum of Natural History e o Museu da Espionagem Internacional.

É surpreendente que, em comparação com as congéneres europeias (Londres, Moscovo, Berlim, Roma, Madrid, Paris), Washington não ultrapasse os 600.000 habitantes. Porém, não fica atrás em termos de influência à escala universal.

Os conhecedores desta sociedade, reconhecem que a capital espelha os tais “checks and ballances” da democracia. Com efeito, a própria construção, em 1790, deve-se a um acordo pelo qual os estados do sul liquidaram as dívidas dos do norte, tendo por contrapartida a deslocação para sul da sede do governo, sediada nessa altura em Filadélfia.

Foi George Washington quem determinou que ficaria na confluência dos rios Potomac e Anacostia, entre os portos de Georgetown (Maryland) e Alexandria (Virgínia). Assim se projectou o “Território de Columbia” (em comemoração de Cristóvão Colombo), com parques, canais, fontes, imponentes edifícios e ruas direccionadas em eixos norte-sul (identificadas por números) e este-oeste (por letras). Em diagonal, desenhar-se-iam avenidas, cada uma com o nome de um estado. Em 1791, uma comissão mudou a designação do “Territory of Columbia” para “The City of Washington”, mas o “pai” dos Estados Unidos não gostou e, para ele, continuou sendo “The Federal City”.

Deixámos para outra oportunidade uma planeada ida ao restaurante do Hotel Mayflower para comer uma “reuben sandwich” na mesma mesa onde, todos os dias durante vinte anos, almoçou J. Edgar Hoover, director do FBI. Em vez dessa aspiração, acabámos no “Fadó”, no 808 da Rua Sete.

Fomos iludidos pela consonância lusitana. Trata-se de um “pub” irlandês, onde nos maravilhámos com um “Fado Gourmet Burger”: um hambúrguer feito em casa, com bacon, rúcula, tomate, queijo roquefort e cebola grelhada. Tudo por $12.95, mais a cerveja “Kilkenny Irish Cream” que recomendamos. Vem a propósito explicar que a palavra “fado” significa “há muito tempo” em gaélico irlandês.

Foi o nosso fado (à portuguesa) que fez com que não tivéssemos revisitado Washington com mais frequência. Há quem, ao ouvir este nome, fique com a cabeça cheia de teias de aranha. Ora bem, se não gosta da democracia à americana, pode optar pela de Pyongyang ou dos talibãs de Cabul.

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