SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 09:00

A magia das recordações escolares

Faz alguns anos, ouvimos uma doutoranda referenciar-se a um insigne investigador há muito jubilado da seguinte forma: “se eu tivesse setenta anos, morreria de susto”. Esta frase saiu da boca de uma jovem que via pela frente uma vida quase sem fim. Hoje, pensamos que os setenta estão a chegar a grande velocidade e que em menos de meia dúzia de verões atingiremos essa idade. Mas como é que isto é possível? Se, em criança, os ponteiros do relógio se moviam lentamente, com o acumular dos anos parece que esse movimento tende para a aceleração.

Sempre a correr, sem saber ao certo porquê, atravessámos quatro vezes o “rio Atlântico” nos últimos dois meses. De Portugal, regressámos com imagens de um aumento de indigentes, do empobrecimento da classe média e da obscena concentração de riqueza nas mãos de políticos de meia-tigela que, tanto no Estado como nas autarquias, não cessam de extorquir o que ainda resta a milhões de portugueses. Estamos em vias de concluir que será bastante difícil aparecer um Espártaco qualquer para gritar: “Alto e pára o baile!”.

No entanto, o objectivo deste retorno às páginas d’O Almonda é de recordar o pretérito 5 de Maio, dia de Santa Judite, pois foi nesse domingo que os ex-alunos dos Professores Silva Paiva e Oliveira se reuniram para repartir afectos e abraços. Serviu de cenário a quinta do Luciano e, por testemunhas, as vacas charolesas e limusinas que, em intermináveis ruminações, se extasiaram com o espectáculo.

Talvez devido ao estado em que se encontra o país, o almoço começou a ritmo lento. O repasto abriu com uma sopinha como manda a lei, a que se seguiu um estupendo ensopado de borrego digno de se lhe tirar o chapéu. Tradição, qualidade e técnica! Os temperos cuja fórmula secreta foi patenteada pelos faxinas da cozinha, casavam-se à perfeição com a carne que mais parecia ser de cordeiro e o pãozinho torrado à maneira. Reparámos que as alfaces e a cebola da salada ainda sabiam a horta e, bem assim, as ervas aromáticas que lhes deram um toque de “je-ne-sais-pas-quoi”. No terceiro acto, foi servido um voluptuoso doce e uma variedade de espíritos destilados.

A operação esteve a cargo do chefe Diamantino Rosa, com o comandante Ribeiro nas provisões, o Jerónimo na logística e o duo Luciano/Damásio a funcionarem como estrategas. Vem a propósito sugerir estes nomes para a pasta das finanças. Ou para uma eventual Junta de Salvação Nacional. Comer bem e barato, só com malta deste calibre.

À medida que o tinto musculado ia desaparecendo dos copos, a tagarelice ia-se avolumando e, como tu falas alto eu não ouço baixo, todos os convivas se exprimiam em sonoras e demoradas risadas. De repente, sentimos que estávamos a intrometer-nos no bucolismo das vacas.

A serenidade circundante e a revivência das memórias só cessaram com o rebater dos sinos (ou das facas nos copos) para dar o início à cerimónia da entrega dos troféus do costume. Após consulta secreta aos membros desta ilustre confraria, ficou resolvido por unanimidade que o camarada Vigário fosse agraciado com a “Ratoeira d’Ouro 2013”. Desta forma, o seu nome ficará gravado no quadro de honra dos egrégios colegas destas andanças educacionais.

Para terminar, houve cantorias e guitarradas. A trintena de camaradas teve por surpresa a presença do filho do José Júlio Baltazar Farinha. Este jovem músico quebrou a supremacia da equipa dos Oliveiras nesta matéria. Como o pai é dos Silva Paivas, os rouxinóis do Almonda aceitaram o repto. No final, registou-se um empate. A desforra realizar-se-á em 2014.

Até lá, deixamos aqui a confirmação de que estes malteses são indomáveis. Como se pode constatar na foto que acompanha estas linhas, não acatam ordens da esquerda nem da direita, de cima ou de baixo.

Apenas as vacas, no cimo do monte, não saíram do local que lhes foi atribuído.  Quanto a nós, sem mentalidade bovina, diríamos como o ensaísta Eduardo Lourenço que “a nossa razão de ser e a razão de toda a esperança é termos sido…Ou o império majestoso da nostalgia”.

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