SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:39

Viva Bollywood!

 

O cinema sempre associou a arte ao comércio. Esta ligação é ao mesmo tempo fascinante e inquietante.

 

Constatamos isso a todos os níveis. Nenhuma faceta escapa. Faz-se negócio do cinema, enquanto o cinema negocia com tudo. Os exemplos são numerosos: escolhe-se um actor, uma actriz, um tema ou um local em função da atracção da assistência. Não menos reveladoras são as diferentes fases da comercialização de um filme: primeiro, é o lançamento para a crítica e “cognoscenti”, depois segue para as salas e, por fim, acaba por ser distribuído em DVD. Quando se trata de uma megaprodução até vendem bugigangas para aumentar os lucros.

 

No entanto, com os recentes desenvolvimentos tecnológicos, quase tudo teve de mudar. E é conveniente perguntar onde se situa o espectador no meio destas transformações?

 

Para quê ir a uma sala de cinema, se podemos ver um filme no conforto do lar? Por cabo, pela televisão paga, mesmo via internet. Há quem ainda frequente os cinemas para se distrair, por força do hábito ou em busca de emoções. Outro motivo que marcou a nossa geração — a das cinematografias sueca, francesa, italiana e japonesa —  está cada vez mais ausente: o valor estético. Sobretudo, no contexto “made in Hollywood”.

 

É neste quadro que surgiu um novo tipo de cinema bastante popular. Diz-se mal da globalização. Muitas vezes com razão, mas não podemos esquecer que este fenómeno também criou oportunidades para os países não ocidentais. Referimo-nos, por exemplo, à indústria aeronáutica brasileira, à invasão das mercadorias chinesas, aos vinhos chilenos e sul-africanos e…ao cinema indiano.

 

Hoje, as películas produzidas na Índia são mais conhecidas do grande público da Ásia, Médio Oriente e África do que muitas realizações americanas. Os estúdios encontram-se sobretudo em Bombaim, daí a denominação de Bollywood. As versões em DVD têm vasta distribuição e conquistaram nichos importantes do mercado nas comunidades imigrantes da Grã-Bretanha, Canadá, Austrália e Estados Unidos.

 

Embora não seja ainda uma séria ameaça à hegemonia americana, a sua presença é notória em festivais e congressos. Tudo começou pelas diásporas indiana e paquistanesa, mas, como sabemos, não ficou por aí.

 

Quase por acaso, vimos no cine-clube da TVOntário “Monsoon Wedding” (2001) de Mira Nair. Como temos uma aluna de doutoramento que nos apresentou uma excelente análise do célebre “Salaam Bombay!” (1988) da mesma cineasta, não resistimos à tentação de passar o serão com “Monsoon Wedding”. Não nos arrependemos.

 

Alguns ingredientes talvez sejam os mais aliciantes para milhões de admiradores, sobretudo nos continentes asiático e africano: muitas cores garridas, excelente música e danças animadas. A narrativa é fluida e os diálogos são interessantes, apesar de nem sempre se compreender o inglês com forte sotaque hindustano.

 

A verdade é que vendedeiras de rua em Nairobi ou Adis Abeba, lojistas do Cairo ou os barbeiros da Brixton londrina vibram com aquela salada fílmica. Não falta nenhum sentimento humano, pois o leque é amplo: amor, inveja, solidão, esperança, paixão, dor, ciúme e por aí adiante. De tudo isto, ressalta o conflito entre os valores tradicionais e a modernidade destas sociedades em transição. Choram as próprias lágrimas.

 

Achámos que foi justa a atribuição de uma mão-cheia de óscares – oito! — a “Slumdog Millionaire”, de Danny Boyle. É o justo reconhecimento de uma moderna indústria de cinema. Não é a Índia exótica de outrora, é um país que, tal como a legendária fénix, renasce das cinzas para voar bem alto. Do ponto de vista estético, não segue os mesmos cânones dos clássicos Ingmar Bergman, Fellini ou Truffaut. Está nos antípodas do sonolento Manoel de Oliveira. Porém, é um sucesso reconhecido por centenas de milhões de espectadores.

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