SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 15:34

Intervir para ser livre

 

Não é preciso ser-se grande observador para retirar a seguinte conclusão acerca de nós portugueses. Somos tendencialmente especialistas em acusar o Estado de tudo e mais alguma coisa, em exigir mais intervenção de um dos Estados mais interferentes do mundo, que por sinal não tem capacidade para actuar convenientemente em metade das áreas pelas quais se responsabiliza actualmente.

 

Somos peritos em fazer acusações, em apontar o dedo e, simultaneamente, a martirizarmo-nos, a fugirmos à nossa quota-parte de responsabilidade. Em suma, em persistir na habitual ladainha da desventura, da desdita e do fado.

 

Uma boa parte dos eleitores deste país acha natural, diria até justo, responsabilizar o Estado por todos os males do mundo, criticar abertamente a classe política em qualquer café de bairro, a alto e bom som, sem ter manifestado a sua opinião nas urnas. O mesmo é dizer que este tipo de pessoas perde o seu tempo, na inoperância da esplanada, a inflamar os outros descontentes, sem nada fazer para alterar o rumo dos acontecimentos, não contribuindo sequer com o seu voto.

 

Como devem ter noticiado, durante o período eleitoral houve um sem número de pessoas a “justificar” a sua abstenção com a inexistência de um “líder mobilizador”. Todos sabemos que um líder pode mudar um país, que pode, através da sua empolgante oratória, incentivar milhões de pessoas a votar, guerrear ou produzir massivamente, mas a verdade é que líderes com tamanha capacidade não surgem ordinariamente.

 

Howard Gardner defendeu que se conseguir mudar mentalidades, um líder pode mudar o mundo. Nem indivíduos tão brilhantes como Abraham Lincoln, Ghandi, Winston Churchill, Roosevelt ou Mandela o conseguiram, porque na prática nunca o ambicionaram.

 

Sermos ingénuos, ou suficientemente arrogantes para pensar que podemos mudar o mundo, é o primeiro passo para o fracasso. Estes homens conseguiram mobilizar povos para uma causa, para mudar o estado de coisas, não com o objectivo de concretizar idealismos imaterializáveis, como o da perfeição.

 

É tipicamente português querer que tudo seja perfeito sem que percebamos que a perfeição é inimiga do progresso. Não existem projectos irrepreensíveis e sempre que tentamos criá-los nunca somos bem sucedidos. Reparem há quantos anos se discute a localização do “novo” aeroporto de Lisboa.

 

Somos sempre tolos o suficiente para acreditar que através do uso desmesurado da razão conseguiremos solucionar todos os males, muito embora nunca saiamos da cepa torta. Colocamos as expectativas demasiado altas, buscamos insistentemente saber tudo, encontrar o melhor sistema, e tardamos a agir, a tentar, a errar e a aprender com os erros.

 

Igualmente preocupante é transportarmos este ideal de perfeição para os líderes políticos. O desejado, El Rei D. Sebastião caiu em Alcácer Quibir e não voltará. Esta concepção utópica de líder perfeito é talvez das coisas mais perigosas numa sociedade que se diz livre. Estarmos dispostos a abdicar do nosso poder, porque o voto é poder, em prol de um líder, é dar a esse líder a possibilidade de nos dominar, de exercer coerção sobre nós, de ir contra as liberdades que conquistámos sem derramamento de sangue há trinta e cinco anos atrás.

 

Talvez John Stuart Mill estivesse certo quando afirmou que a maioria das pessoas escolheriam um “déspota bom” para governar por eles caso este existisse. E na prática é disto que continuamos à procura. De alguém que faça o trabalho difícil por nós. De alguém em quem possamos confiar cegamente para criar um plano perfeito para o país. E é normalmente em prol destes planos que se cometem as maiores atrocidades, pois tudo se torna justificável para que este se cumpra. Todas as dissidências, todas as eventuais consequências são danos colaterais. Vidas, liberdades, tudo!

 

Abdicar do livre exercício do nosso sentido de voto, do fugaz espaço de intervenção política que todos detemos, por uma ida à praia, ao cinema ou a qualquer outro local, é o maior insulto à memória de homens como Humberto Delgado. Recusar proceder à limitação de poder crucial a qualquer democracia, renunciar ao direito de escolher os nossos representantes, por piores que sejam, é um insulto à memória destes homens que morreram para que hoje fossemos livres.

 

Para que um puto de dezanove anos, que nada sabe da vida, se atreva a dar lições de moral aos conformados, sem receio.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados