SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 16:11

Águas iguais para quem começa a nadar

 

Recentemente, em plena pausa de estudo, deparei-me com um espectáculo deveras preocupante, mais um, enquanto assistia a um desses fóruns de discussão, comuns nesses canais especializados em informação. Discutia-se a exigência do ensino em Portugal, mais concretamente, das provas de aferição.

           

Como é habitual, um representante do gabinete que cria as ditas provas, que, confesso, não me dei ao trabalho de precisar o nome, embora possa apostar na pompa do mesmo, veio defender o laborioso e honroso trabalho conjunto do Ministério da Educação e dos professores para que a percentagem de aprovados fosse tão assinalável.

 

Obviamente, tive de desconfiar desta afirmação, e o que me despertou a atenção foi a súbita “amizade” entre o ministério e os professores, que tão gentilmente têm sido tratados pela ministra em funções e seus assessores, ou será melhor dizer cúmplices? Este termo, embora pejorativo, não possui uma conotação tão negativa quanto deveria, dado que, a política de educação deste governo tem sido, absolutamente, abominável, quase criminosa, na medida em que desrespeita os ideais democráticos porque me rejo.

 

A Democracia deve possibilitar aos cidadãos de um determinado Estado, o acesso igualitário à Educação, à livre iniciativa e, por conseguinte, oportunidades idênticas de desenvolvimento pessoal, económico e intelectual a todos, repito TODOS, os seus constituintes. Diria até que fornecer às nossas crianças um ensino de qualidade elevada é a única opção equacionável, neste momento, para que consigamos encurtar a vasta distância a que nos encontramos das potências europeias, em todos os sectores.

 

Bem sei que tudo isto não passa de um desejo utópico de um jovem crédulo. Aos poderosos não convém que o povo seja instruído, que a cultura seja disseminada. Assim poderão delegar os seus cargos, públicos e políticos, à sua prole, formando dinastias de poder. Segundo este esquema, os seus detentores serão sempre os melhores de entre uma população culturalmente pobre que terá acesso a um ensino igualitário, mas de péssima qualidade.

 

Apesar disto, imaginando-se o cenário improvável, de os cidadãos “comuns” conseguirem presentear os seus filhos com a educação que merecem, tornando-se estes nos melhores alunos, garantidamente os poderosos impediriam, de uma ou de outra forma, a progressão destes alunos meritórios, recorrendo à famosa, mas nem por isso menos repugnante, cunha. Ou seja, em qualquer dos casos, a dinastia do poder manter-se-ia.

 

Se acha a minha opinião extremista, caro leitor, convido-o a consultar o sítio de Internet do GAVE (gabinete de avaliação educacional), algo que acabei por fazer, para que possa apreciar a suposta “elevada” exigência das provas anteriormente referidas, segundo os responsáveis do ministério.

Posso garantir-vos que ficarão impressionados com alguns exercícios da prova de matemática do 4º ano. São de uma facilidade imoral, vergonhosa, inclusivamente para um qualquer governo ditatorial da América Latina. Como sabem, a fraca exigência da avaliação é habitual neste tipo de regimes, com o objectivo de estupidificar a população, que se quer tosca, embrutecida e pouco dada à contestação.

 

O que lhe quero transmitir com este meu artigo de opinião é que está a ser enganado. Se pensa que os seus filhos estão a aprender o que deveriam na escola apenas porque têm apresentado bons resultados, esqueça tal miragem. Como se não bastassem as pressões exercidas sobre os professores para “passar” alunos com aproveitamento negativo, chegámos ao ponto de as provas de 1º ciclo corresponderem ao nível pré-primário. Isto para que haja bons resultados e o Sr. Primeiro-ministro possa vir dizer, na sua nova persona modesta, obviamente fictícia, que o país possui um excelente Ensino Público.

 

Caso prefira acreditar nesta visão floreada, demagógica, com pretensões de parecer ser promissora, em lugar de acreditar em mim, pobre jovem inexperiente, aluado, não me ofenderei. Contudo, peço-lhe que tente, por bondade, aceder às ditas provas. Certamente perceberá que um núcleo poderoso tenta enganá-lo com números falaciosos de uma suposta evolução.

 

Não acredite em tudo o que lhe dizem, caro leitor, é esta a minha sugestão. Olhe para o tipo de avaliação vigente, sugerida pelo próprio ministério e reflicta. É urgente que nos manifestemos contra esta atrocidade. Isto, claro está, se pretender que o seu filho, no futuro, viva num país justo, onde todos “aprendem a nadar nas mesmas águas”, ou simplesmente, alcance um nível de literacia satisfatório!

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