SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 00:54

Desumanização Capital

 

Caros leitores, devo pedir as minhas mais humildes desculpas mas não consigo evitar iniciar-me nestas andanças de imprensa sem uma crítica acérrima, não fosse eu um bom português. Pretendo patentear o meu desagrado com a forma como, contemporaneamente, comunicamos nas grandes metrópoles, sendo Lisboa exemplo sintomático. Chegámos a um ponto extremo de falta de respeito que já vinha a assolar algumas das grandes urbes ocidentais, não havendo lugar para um simples gesto de compaixão, entreajuda ou afabilidade para com um comum concidadão.

 

Alcançámos um ponto sem retorno em que as relações sociais não se processam com estranhos devido à superioridade que muitos sentimos em relação ao outro, por preconceitos idiotas, por vezes nacionalistas, ou por simples inibição em iniciar um diálogo. Espantam-se!? Quantas vezes não esperei, tal como você, por uma resposta a uma saudação matutina, sem todavia a obter? Quantas vezes ficaram por ouvir agradecimentos por, cordialmente, mantermo-nos a segurar uma dessas portas de vidro de um dos muitos “antros germinantes”, destruidores do comércio artesanal, a que chamam centros comerciais, permitindo a passagem de uma senhora bem-posta?

 

Mas o que mais me surpreende não é o facto de haver pessoas mal-educadas, pois essas sempre existirão! O que me enfurece é a minha timidez que me manieta o “espírito” e me impede de responder convenientemente. Depois destes cada vez mais vulgares episódios, “deito-me” a pensar e, descrente, acabo por considerar que uma reprimenda não impediria que essa situação se voltasse a repetir, correndo o risco de ser ridicularizado na “praça pública” pela minha “excessiva educação”. É precisamente este o ponto a que gostaria de chegar.

 

As coisas mudam, bem sei, e chamem-me conservador se preciso for, mas quanto a mim, há poucas coisas melhores para suportar as adversidades quotidianas que enfrentamos do que uma recepção acalorada de um dos vizinhos no elevador ou do segurança da faculdade. Depois de tudo isto, não me peçam para meditar sobre as causas desta evidente despreocupação com o outro; fico-me pela “denúncia”. Agora, cabe-vos reflectir, coisa algo rara nesta sociedade de consumo, sobre as eventuais causas e os possíveis efeitos. A mim interessa-me mais ver este problema solucionado.

 

Para os que não vêem esta falta de educação, chamemos-lhe assim, como um problema, permitam-me que pinte um cenário bem negro. Imaginem que estão numa sala de espera e desfalecem. Estão rodeados de pessoas e nenhuma delas tem a bondade de chamar um médico ou um enfermeiro e você, caro leitor/a, acaba por falecer. Parece ridículo ainda para mais estando você num hospital? Pois não o é! Já aconteceu recentemente nesse “reino da desindividuação” que são os E.U.A.

 

Há quem defenda que o Homem se tornou um ser social para se proteger das feras, que viu alguma conveniência no agrupamento com indivíduos da mesma espécie. Não tenho opinião formada acerca disto, contudo, tenho a certeza de que gostaria de ser auxiliado caso caísse inanimado num hospital! É por isso que lhe lanço um apelo, caro leitor/a, se preza a sua saúde, mas fundamentalmente a sua sanidade mental, comece a dar mais valor a quem o rodeia, seja o seu subalterno ou o seu superior hierárquico que lhe inferniza a vida. Sugiro que comece a tratá-los como seres humanos e não como objectos. Nunca se sabe quando poderá precisar deles!

 

Sumariando, se não conseguir ser cordial por estar a afogar-se “num mar de dívidas”, por ser, simplesmente, anti-social, ou apenas porque é um executivo pedante muito seguro de si, lembre-se que todos nós temos desventuras e todos nós adoecemos, mesmo aqueles que se endeusam ao ponto de pensar que são imortais. Tratar bem o outro e esperar ser bem tratado corresponde ao já muito antigo, “princípio da reciprocidade”, quase tão antigo como a espécie humana. Parece algo hediondo, interesseiro, descrito desta maneira. Mas é ele, bem como a reprodução, que permite a tão badalada “conservação da espécie”. Descurar este raciocínio poderá ser perigoso…reduzir-nos-á a simples bestas com a faculdade de pensar, isolados dos nossos semelhantes, depressivos e permanentemente amedrontados. Acredite ou não, no futuro, pode vir a precisar de mim, como eu de si.

 

Já dizia Aristóteles que “o Homem é um ser social” e eu acrescentaria que não passamos disso mesmo.

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