SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 01:06

A Luta é Alegria

 

Finalmente Portugal elegeu uma música que foge às melodias rascas numa mistura de degredo pop com letras banais dos últimos anos interpretados por Rui Bandeira, Luciana Abreu, Non Stop, Flor do Lis, Filipa Azevedo, Sabrina, Vânia Oliveira, Sofia ou MTM.

 

Mas afinal, parece que todo o país acordou no sábado para assistir pela primeira vez ao Festival da Canção desde 1980 e descobriram que os nossos concorrentes nos vão envergonhar no estrangeiro. Que atrevimento dos Homens da Luta; que hipocrisia de um povo musicalmente inculto!

 

Não é palhaçada. Julgo que o povo sentiu mesmo uma energia e uma ligação a esta música como um movimento de força a, essas sim, palhaçadas neste estado de injustiças.

 

Este país tem cada vez menos do povo. E isso também faz falta. Ignorar isso é uma parte importante da nossa falta de identidade que nos tem levado para o abismo, para uma geração de gente que não sabe o que é ser português, o que essa alma representa e o que são as nossas raízes.

 

E, mais importante que tudo, ignorar este tipo de mensagem é ter uma mente fechada e pouco conhecimento histórico deste concurso em Portugal pois, neste contexto, não podemos desassociar música e política. O Festival da Canção teve significado, para mim, pela primeira vez por um simples motivo: renasceu nesta música o tipo de mensagem que passava neste concurso até 1974, não obstante a melodia.

 

Não quero o Neto nem o Falâncio como governantes, naturalmente, como certamente eles também não querem isso. As pessoas confundem tudo ao darem exemplos do que poderá acontecer daqui para a frente tendo como base de exemplo esta vitória.

Tretas: nenhum emplastro será governante porque as pessoas sabem distinguir as coisas. Aliás, nenhum Primeiro-ministro ou Presidente da Republica que se recandidatou foi derrubado nas urnas portanto não vale a pena conceberem-se teorias psicóticas com a intenção de desvalorizar a vitória dos Homens da Luta.

 

Nem sempre o local escolhido é o ideal mas serve de pretexto. Uma das mais genuínas manifestações contra o poder político que vi em Portugal foi a enorme assobiadela que o então Primeiro-ministro Durão Barroso levou na inauguração do Estádio da Luz. Foi palhaçada e falta de educação? Talvez. Mas isso não foi o essencial a tirar daquela situação.

 

Os Homens da Luta não estavam essencialmente interessados na música. Se tivessem perdido tinham saído dali com a mesma atitude e o mesmo discurso e é isso que esta camada populacional que se preocupa mais com as aparências do que com a essência das coisas ainda não foi capaz de perceber. É que, como disseram os vencedores, “vale mais uma nota sentida que uma nota afinada”, partindo do principio que nos restantes concorrentes existiam notas afinadas.

 

Por falar em atitude, foi lamentável a forma anti-desportiva e desrespeitadora pela decisão conjunta do júri e do público como os apoiantes dos concorrentes derrotados assobiaram os vencedores na hora de receberem o troféu. Uma demonstração gritante daquilo que somos: porcos, feios e maus.

 

Portugal é assim e sempre será: continuamente fecham escolas e hospitais mas o que interessa é mostrar os nossos estádios novos; somos dos países com pior qualidade de vida na UE mas o que interessa é engalanarmo-nos na organização da cimeira da NATO; as pessoas sentem-se inseguras e há portagens em todos os troços com boas vias mas o que interessa é mostrar que temos poder para comprar cada vez mais submarinos e chaimites inúteis; não temos uma voz decente no Festival da Canção quase há 30 anos mas sempre dá mais jeito mandar uma Luciana Abreu plastificada e com um busto de encher a vista do que os Homens da Luta que, vejam lá a ousadia, vão passar uma má imagem do país!

 

Concluo dizendo que os Homens da Luta venceram destacadamente as votações online e telefónica e conquistaram dois distritos na decisão do júri, nomeadamente, Viseu e Bragança. Isso prova que estes concorrentes não estão assim tão deslocados da realidade.

 

Se é a música ideal? Talvez não.

Se tem a letra certa? Em parte sim.

Se demonstram a atitude correcta? Sem dúvida.

 

E adivinhem esta: quem é que esteve, no dia 12 de Março, na Avenida da Liberdade a dar voz ao povo, ali mesmo ao meu lado? Pois é, os Homens da Luta, esses grandes chatos!

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