SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 03:45

O Tempo Mágico

 

O próximo governo já caiu. Morreu antes do parto com duas doenças: inviabilidade das alianças e inflexibilidade para os compromissos. Das alianças, percebe-se. Dos compromissos, imagina-se. Recusam-se todos até que seja viável servir apenas os interesses de quem se pretende privilegiar.

 

O país é pequeno demais. Os únicos pactos de regime são feitos para prolongar os vícios de quem legisla e para manter os privilégios de quem deveria servir-nos a todos. A Constituição foi feita para cidadãos menores. É ineficaz a encontrar os equilíbrios necessários. De repente, nada funciona. E assim se perdem as esperanças colectivas de mais um ou dois anos das nossas vidas.

 

O nosso bem mais precioso é o tempo. Mas deixamo-lo correr em torneiras abertas como se esse desperdício não contasse. Fazemos mal. O tempo é mágico. É sempre mágico. Transforma tudo sem tocar em nada. Altera-nos a cada segundo, faz-nos mais velhos, mais oxidados e aproxima-nos da morte com a subtileza dos transatlânticos a atracar.

 

Contra estes políticos, já pouco há a fazer, até que a pobreza seja intolerável ou que a Europa nos resgate. Mas nada impede cada um de nós de olhar para o tempo que nos cabe e de perceber que devemos investir em decisões imediatas para recuperar o crédito que recebemos no dia em que a nossa mãe nos deitou ao mundo.

 

Ficamos a perder se nos lamentamos e mais nada. Perdemos se apenas choramos porque a vida não tem solução, porque Deus anda de olhos fechados em relação a tudo o que nos diz respeito, porque na universidade nos ensinaram apenas conceitos inoperantes ou porque no emprego nos confirmam frequentemente que o esforço adicional é inglório.

 

O tempo nunca deixa de ser precioso. É a única coisa que ele mantém. Mas não é possível agarrar o tempo a não ser na perspectiva de o engravidarmos de nós. De o enchermos de vida pela matriz do nosso ADN. De o moldarmos pelos contornos das nossas esperanças, das nossas verdades mais profundas e do sentido que damos à nossa redenção.  

 

O contrário disto chama-se infelicidade. Pode ou não traduzir-se em tristeza e esse contrário nem sequer é destituído de gargalhadas sonoras. Mas duram pouco. Parece que tudo existe a muito curto prazo.

 

A forma como essa infelicidade nos entorpece e engana com todas as infinitas urgências e obrigações do imediato tem um monumento. Chama-se “A Montanha Mágica”. É a história de um jovem de vinte e tal anos, chamado Hans Castorp, que foi para um sanatório à espera de lá ficar três semanas. Ficou sete anos.

 

O tempo escorregou-lhe por entre os dedos. Esvaiu-se em dias, semanas, meses e anos. Foi-se desfazendo na tentativa de compreender o mundo, de o interpretar segundo as teorias dominantes. E foi-se perdendo, mesmo se essa busca se ia tornando um encontro com as visões de mundo mais vincadas e se assim o espírito de Hans Castorp ia vivendo uma dos maiores privilégios da existência, se considerarmos privilégio o entendimento que temos dela. 

 

E quanto mais Hans Castorp fazia diluir o tempo em compreensões mais ou menos elaboradas, mais se interrogava sobre a vida e sobre as circunstâncias que a determinam, num absurdo de intenções que o levavam de manhã em manhã como quem segue pela vida ao sabor dos encontrões de quem passa.

 

A Montanha Mágica é a descrição com a minúcia possível, do fluir do tempo. Ensina-nos a olhar para nós a cada gesto e a cada instante.

 

A história foi escrita por Thomas Mann durante o período da Primeira Guerra Mundial e reflecte muito das preocupações daquele tempo em que a humanidade julgava ter vivido “a guerra que iria acabar com todas as guerras”. Foi o que se viu. Mas o valor da observação permanece intacto.

 

Em todo o romance há apenas uma frase em itálico. Diz isto: “Em nome da bondade e do amor, o homem não deve conceder à Morte nenhum poder sobre os seus pensamentos“. Talvez desde então possamos ter aprendido que essa concessão não deve ser feita a muitas outras circunstâncias da vida. Talvez à maioria das que nos cercam.

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