SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 17:13

E agora, a pobreza

 

Podemos preparar-nos para a pobreza. Para adoecer em hospitais degradados, para andar em estradas esburacadas, para ver aquilo que temos de mais precioso a cair de podre e para assistir à tragédia que é ver cada vez mais gente convencida de que estamos condenados a uma miséria que não merecemos. Os políticos enganaram-nos. Fizeram-nos crer que nossa vida iria melhorar sempre, pelo caminho que levamos. Mas já não podem mentir mais. Está à vista de quem quer ver. Assim mesmo, fazem campanha como se essa pobreza não fosse inevitável com este rumo.

 

Para que se entenda: se há dez anos cada português devia um melão ao estrangeiro, hoje deve dez melões. Só de juros, pagamos já acima daquilo que nos vai asfixiar durante décadas.

 

Isto não é discurso de direita nem de esquerda. São factos. A questão está na forma como os políticos os colocam, os distorcem e nos deixam cegos para as soluções. E o engano vem de todos os lados. Tanto da esquerda como da direita como do centro. Porquê? Porque podem fazê-lo. Porque lhes é vantajoso fazê-lo.

 

A começar. Não há forma de fazer ouvir as vozes que deveriam gritar bem alto: os deputados que nos representam. A Assembleia pertence a cinco cabeças que elegemos com base em cinco ou seis assuntos. Depois de eleitos, acabou-se. São as cinco cabeças que mandam. Aquelas que se vêem agora nos cartazes. As únicas das legislativas. Porque os outros duzentos e tal são correias de transmissão. Não representam nada a não ser o líder e sujeitam todos os interesses do país ao interesse desse mesmo líder. O descaramento ultrapassa tudo o que se pode imaginar.

 

Está feito para ser assim. Estes políticos entrincheiraram-se em 1975 e ninguém os faz sair. É a Democracia das cinco cabeças e dos cinco assuntos. E é por isso ninguém diz o que é evidente: onde podemos poupar e onde podemos ganhar.

 

Para poupar, basta olhar para mais factos. E há um destacado à cabeça. Aquilo que se gasta com as freguesias e os concelhos que mal têm dinheiro para ordenados podia tornar-se escolas, jardins e hospitais. Podia fazer diminuir a dívida que nos asfixia a todos. Chamam-lhe regionalização. Está escrito na Constituição que é necessário fazer mas ninguém faz. Porquê? Porque as cinco cabeças ficam com muito menos cargos para distribuir. E porque ao fazerem aquilo que o país mais precisa, perdem poder.

 

Para ganhar, não é tão evidente. Mas a necessidade de exportar é um consenso e os caminhos não podem ser muitos. Saber porque é que o investimento estrangeiro não entra tem de ser um deles. E isto não é feito porquê? Porque várias espécies de pactos continuam a proteger os interesses que conseguem mobilizar esse tipo de influências. E tanto do lado de patrões como de empregados. É igual. E onde anda quem deveria denunciar isto? Anda a defender os interesses do líder.

 

Depois, empreender. Também parece discurso de direita. Mas mais uma vez, não é de direita e nem de esquerda e nem de centro.

 

Há cento e cinquenta anos, quando dávamos os primeiros passos na aquisição do nível de vida que conseguimos alcançar, com oito horas de trabalho, pensões de velhice e assistência na doença, foi escrita uma história que ilumina a escuridão que são os “Tempos Difíceis”. Chama-se assim mesmo e foi escrita por Charles Dickens.

 

Fala-nos de uma visão política da época camada Utilitarismo. Uma cartilha que falava na optimização do bem-estar de um número máximo de cidadãos. Que analisava as causas e as consequências com base exclusiva na racionalidade.

 

O Utilitarismo falhou. E é isso que nós podemos aprender com os “Tempos Difíceis. E talvez isso nos dê a última pista que falta para percebermos porque é que não conseguimos ganhar quase nada.

 

Dos tempos difíceis, só pode sair-se de uma maneira: fazendo, empreendendo. A questão é que ninguém se torna empreendedor porque os números mostram que é bom e enriquece. O empreendedor nasce da visão, da imaginação, do gosto, da perspectiva concreta de uma recompensa e do sonho em que se vislumbra o produto do esforço.

 

E é claro que deste sonho também tem de fazer parte a forma de lá chegar. Como acrescentar valor ao que quer que seja. Como fazer nascer nos outros a necessidade de adquirir esse valor. Como expandir a capacidade de produzir e de colocar nos mercados esse valor criado. Só assim se cria riqueza.

 

Mas não é pelos números que se chega lá. É por aquilo que existe dentro de cada um de nós. Pouco ou muito. Porque nasce com o simples gosto pela liberdade. E porque se estimula a cada dia, a cada instante, com os sentidos, com a razão e com as emoções. Numa acção e numa busca permanente que tem o nome mais desgastado e mais injustamente conspurcado por todas formas de interesses. Uma acção que se chama Cultura, no sentido mais amplo e mais humanista da palavra. Que vale para isto e para muito mais.

 

Até lá, vamos votando. E como o sol que não tem alternativa, fazemos brilhar o nada de novo.

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