SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:57

O maior de todos os dramas

 

Talvez o sofrimento moral seja o maior de todos os sofrimentos. E talvez seja também a medida exacta da nossa relação com o mundo. Mas essa relação nunca mais será o que era. A partir do século vinte, tivemos paliativos para todas as dores. Para a dor moral também. Temos “prozacs”, psicólogos e toda a espécie de analistas da dor. Mas não chega. À mínima oportunidade, diluímos o sofrimento moral em passeios descalços por praias exóticas. O paliativo passou a ser a medida da nossa relação com o mundo. Mas não é esse o testemunho que herdámos. E não foi assim que construímos o melhor da nossa memória.

 

Conheço três géneros e meio de escritores. Os que sentem o fascínio do mundo, como Victor Hugo ou Le Clézio, o último prémio Nobel. Os que sentem o fascínio de si próprios, como Marcel Proust ou Céline. E os que sentem o fascínio da relação entre as duas coisas: Shakespeare ou Cervantes. E se falta ainda o meio género é para não deixar de fora aqueles que sentem o fascínio da conta bancária.


Os que sentem o fascínio de si próprios sempre acharam consolo na hipervalorização do próprio sofrimento. Fazem dele um espectáculo de remissão. Os que sentem o fascínio do mundo vão pelo inverso ou desfazem-se em missões que ninguém lhes encomendou.


Hamlet talvez seja a medida mais justa entre o sofrimento moral e a compreensão do mundo. Hamlet sofreu mais do que ninguém. E já não é provável que alguém venha a sofrer como Hamlet. Talvez seja por isso que é ele o mais vivo de todos os mortos.


O tio matou-lhe o pai porque queria ser rei. O pai aparece-lhe em espírito a pedir vingança. A mãe deita-se todos os dias com o tio assassino. A noiva enlouquece. Os amigos estão a soldo. E Hamlet só consegue hesitar. Pensar e hesitar.


E é então que Hamlet pesa o valor da vida. E fá-lo como mais ninguém. O monólogo é a síntese que põe em palavras esse valor. Quase sempre se vê nele um discurso de suicídio mas o que ali está, na verdade, é a vida a prevalecer sobre a morte. Existir ou não existir é a questão. Vale a pena ou não vale? Mas se vale, como é que fazemos? Aceitamos as feridas que nos provocam os dardos da sorte cruel ou pegamos em armas e reagimos? E se a dor é insuportável, por que é que não acabamos com o nosso próprio sofrimento? Por que é que resistimos à tentação quando sofremos? Porque morrer talvez seja dormir. E porque talvez sonhe quem dorme o sono da morte.


Mas que sonhos serão esses, do lado de lá da existência? Hamlet não responde mas deixa a pergunta. E nós sabemos a resposta: o sonho que sonhamos na morte é o pesadelo de não existir. Quem pensar em suicídio e ler o discurso de Hamlet, arrisca-se a corar até ao rubro do inferno. Tudo é menor ao lado de Hamlet. E só o sofrimento do tio assassino se lhe equipara: o tio Cláudio que lhe matou o pai.


Com remorsos, Cláudio reza. Mas logo pergunta: “será possível receber perdão quando guardamos os frutos do pecado?” É claro que não é possível. Mas o suplício de Cláudio não fica por aqui. É maior do que o de qualquer outro mortal. Ele não pode desfazer-se dos frutos do pecado. Ele é Rei e não tem solução. Cláudio ajoelha diante de Deus mas apenas porque lhe pende o corpo para essa nota de carácter.


É Shakespeare a dizer-nos que geralmente nos lembramos tarde demais que podemos comprar coisas infinitamente mais valiosas com notas de carácter do que com notas de banco. E que ao darmos prioridade às notas de banco corremos geralmente o risco de perder as de carácter.


O nosso sofrimento situa-se algures entre o zero e o sofrimento de Hamlet. Hamlet pensa mais e melhor do que ninguém. Leva as perguntas ao limite e não sai delas a não ser por uma explosão de sentidos. E tudo se joga em torno do carácter e do julgamento constante que fazemos de nós próprios. Talvez seja este o drama que distingue mais claramente o belo do sublime. O belo encanta. O sublime dói. E Hamlet dói do primeiro ao último minuto. Mas é como as dores do parto, vão todas no sentido da vida.


Hamlet viverá por muitos séculos. Talvez um dia se torne o mais velho de todos os homens. Até lá, vamos vivendo a maldição que ele nos deixa ao morrer. Diz apenas: “o resto é silêncio”. Mas poderá não ser. É mais provável que seja paliativo.

 

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