SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 06:31

Viagens na nossa terra

 

Quando olhamos para Portugal já não vemos quase nada. E não é só porque o património voou. É porque temos o olhar tão viciado como aquele que deitamos à Mona Lisa. Num segundo fica tudo visto. Mas ficará, de facto? Se olharmos para o país à escala do território, percebemos que é exactamente ao contrário. Que há cada vez mais para ver. E percebemos que a urgência cresce à velocidade do TGV. Podemos chegar à conclusão de que o dinheiro que gastamos a administrar o país poderia dar para administrar dois ou três e, se calhar, até quatro portugais.


As freguesias que temos resultam das paróquias da Idade Média. A lógica era espalhar a palavra do Senhor, tanto quanto possível. E assim se espalhou a administração e continua a espalhar todos os dias. Todo o dinheiro que as freguesias recebem é para despesas correntes. Nada se transforma em obra. Mas se juntassem duas freguesias, o mesmo dinheiro daria para administrar e para começar a construir qualquer coisa. Se juntassem três, daria para administrar e para construir o dobro. Com os concelhos é ainda pior. Cada concelho é do tamanho daquilo que um burro consegue carregar durante a noite para ir vender as couves ao mercado. E a administração de um concelho fica muito, mas muito mais cara. Mas ainda não é o suficiente para se fazer a regionalização do país.


Quando Almeida Garrett escreveu as Viagens na Minha Terra não era bem o país que lhe interessava. A viagem era um pretexto. Bastava ir de Lisboa a Santarém. Era uma espécie de versão nacional de um outro livro, escrito por um francês. Esse outro livro chamava-se Viagem à Roda do Meu Quarto. E era um olhar tão original e tão brilhante sobre todas as banalidades que fez escola na Europa inteira. O que interessava a Garrett quando escreveu as Viagens na Minha Terra era esse olhar novo. Um olhar fresco sobre todas as coisas. O país incluído. Nas Viagens na Minha Terra ele diz mal, diz bem, diz o que lhe apetece. Mas olha. E olha com tanto sentido de encontrar aquilo que nunca viu, que até nós, mais de um século e meio depois, vemos as vinhas do Cartaxo como se fosse a primeira vez.


A história é horrível. É uma história de amor e obstáculos. Mas obstáculos que nascem de uma moral tão arcaica e incapaz de gerir os seus próprios valores, que já no século dezanove era rançosa. Garrett sabia disso. Mas não se importou porque também sabia que lhe era útil para dizer o resto. Se nós olhássemos para Portugal daquela maneira, a agenda política passaria a ser comandada pelo olhar dos portugueses. E a palavra Democracia ganharia outro sentido.


A freguesia, o concelho e o distrito fazem-nos perder dinheiro que daria para construir hospitais, escolas, jardins e até aeroportos cheios de TGVs. Mas esta reforma não acontece. E não acontece por uma razão simples. Ela até está na Constituição e continua a ser adiada desde 1976. Não acontece porque os partidos fazem a conta a outra coisa. No momento em que é para concentrar a administração, fazem as contas. E aquele que vê os lugares que tinha para distribuir a desaparecer, corta-se. Encolhe-se e diz que a regionalização não pode ser feita assim. Tem de ser de outra maneira e as razões são as que lhes vêm à cabeça. Todas insignificantes ao pé do problema. É difícil acreditar em partidos que agem assim. É difícil acreditar que não andam em conluio a vender o país pelos cargos que podem distribuir.


Um olhar novo sobre todas as coisas é o que raramente se tem. Mas temos as Viagens na Minha Terra e a ironia de Garrett para refrescar os olhos de vez em quando. É pena que seja tão poucas vezes. Um pouco mais e veríamos o que poderia ser Portugal.

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