SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 23:24

Vencidos por moinhos de vento

 

O diabo já não quer levar-nos. Acha que este inferno nos basta. Vai ardendo tudo à nossa volta e deixamos queimar até a vontade de encontrar melhor do que isto. Um dia dizem-nos que o pior vem aí. No outro ficamos de rastos, à espera que o pior passe com delicadeza. E não há crédito bancário, não há plano de recuperação e nem conto de fadas que nos ilumine o primeiro degrau.

 

Tudo é abóbora e não pára de bater a meia-noite. Mas tempos como este já criaram paraísos. E já se viu o pior a dar frutos que ninguém imaginava. Pode ter sido há quatrocentos anos, mas os paraísos não envelhecem. Continuam a encantar as gerações como se fossem pirilampos e como se tivéssemos todos quatro anos. A noite é sempre a mesma.


Há um livro que é um paraíso. Chama-se o Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha. Foi escrito num tempo como o nosso. Não é de admirar que continue a ser considerado o romance mais extraordinário de todos os tempos. É o livro mais traduzido depois da Bíblia. Porquê? Talvez porque Cervantes fez de um inferno um paraíso. E talvez também porque guarda tanta sabedoria que não se lhe encontra fim. Como se a beleza se acrescentasse à ciência e as duas prolongassem juntas o nosso conhecimento até ao infinito.


O mundo de Dom Quixote é um paraíso. É feito de casebres, de ruínas, de vadios, mendigos, marginais e de toda a sorte de esfarrapados mas é um paraíso. Porque há encanto para onde quer que se olhe. É a primeira lição que aprendemos. Depois, sempre nos disseram que o Dom Quixote é uma paródia aos livros de cavalaria. Que o velho Alonso Quijano enlouquece e que parte contra os moinhos de vento com uma bacia da barba na cabeça. Parte louco para endireitar o mundo. Talvez, não sei ao certo.

 

Mas eu acho que Dom Quixote nunca enlouqueceu. Ficou tão sábio que nos deixou a nós fora da razão. Não por ter lido os livros de cavalaria mas porque da loucura que daí se soltou se desprendeu também a cortina que nos turva o olhar. É isso que lemos nos silêncios do escudeiro Sancho Pança, que parece nunca saber ao certo a direcção da virtude.

 

Os exemplos de sabedoria são tantos que há por onde escolher em qualquer parcela da vida. E sobre a tristeza ou a desmotivação agravada dos tempos de crise, Dom Quixote poderia dizer: “As tristezas não se fizeram para as bestas e sim para os homens; mas se os homens as sentem demasiado, então tornam-se bestas.” É possivelmente o que somos. A lucidez comum, Dom Quixote recupera-a à hora da morte. E é por isso que o comparam com o amor: quando volta a ganhar juízo é para morrer. É a melhor comparação que lhe conheço. Ao próprio amor. E maior lição não me parece que haja. Nem de vida nem de morte. Pode ser multiplicada todas as vezes que quisermos. E creio que vale para todos. Basta olharmos para as maiores loucuras das nossas vidas. Quantas vezes não foi essa loucura o melhor de tudo o que fizemos?

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