SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 02:34

Uma crise para cem anos de solidão

 

Há um Papa que se afirma cada vez mais infalível e que acha que só nele próprio existe verdade. Que ignora as maiores fúrias do nosso tempo e que condena as pequenas misérias como se delas viesse a danação eterna.

 

Mas pode piorar. De certezas como esta nasce uma percepção ainda mais terrível. De que vem aí a guerra. Vêm aí os exércitos daqueles que marcham por outras verdades e por outras certezas. Ninguém os pára. E ninguém tem armas contra estes inimigos de pé descalço que se aproximam com uma sofisticação igual à maior das virtualidades. É assim que percebemos o mundo. E é assim que o vemos quando não conseguimos acreditar em nenhuma das verdades de consumo rápido. E, no entanto, há uma evidência que escapa. Uma evidência de que os males também podem explodir. De que as misérias nem sempre são misérias a tempo inteiro e de que também a alma pode tomar banho.


Mas quando não compramos certezas em pacotes, os banhos da alma não são tomados a horas certas e nem os chuveiros lá estão onde é só abrir a torneira. É preciso procurá-los. E a água também não escorre de cima para baixo, como se a limpeza fosse um preceito vertical. A água inunda. Enche-nos por todas as direcções. E a isso costuma chamar-se o maravilhoso, à falta de melhor nome. É pena sermos tão centrados na nossa própria miséria. A maioria das vezes olhamos para o umbigo quando a única coisa a fazer seria levantar os olhos. Veríamos mundos bem maiores, tragédias mais pungentes mas também comédias mais hilariantes, e tudo como espectáculo. Descobriríamos muito mais sobre nós próprios. Como quem faz uma viagem bem escolhida, de um catálogo que ainda ninguém pensou.


Quando Gabriel Garcia Marquez escreveu Cem Anos de Solidão, o nosso mundo era outro. Mas ninguém diria. E também não sei quantos males explodiram nesse momento mas nunca deixei de acreditar noutra evidência: de que se abriram portões por onde saiu uma multidão libertada. Um crítico americano escreveu que a humanidade inteira deveria ser obrigada a ler dois livros: O Livro do Génesis e Cem Anos de Solidão. No primeiro ficamos a saber que o mundo pode ter sido criado em sete dias, que Adão nasceu do barro e que a alma lhe veio de um sopro. No segundo ficamos a saber quase tudo o que podem e o que não podem os filhos de Adão. São sete gerações da família Buendía, que vão e vêm de uma aldeia chamada Macondo e onde as novidades como o gelo, o íman ou o homem-cobra chegam também como espectáculo numa tenda de ciganos. Uns partem e outros regressam a Macondo. E tudo acontece ali. Chegam a regressar da morte e a adivinhar como será o mundo dali a cem anos. Mas o tempo parece ter parado no tempo e a vida acontece em círculos como se as desgraças inevitáveis da existência fossem uma roda da fortuna a girar cada vez mais depressa. Às vezes, têm apenas medo que os filhos lhes nasçam com rabo de porco. Outras vezes partem para as guerras civis onde os libertários enfrentam os conservadores e onde todas as civilidades se condensam na mesma luta de sempre. Pablo Neruda disse que Cem Anos de Solidão era o maior livro da língua espanhola desde o Dom Quixote. Mas muito mais gente pensa que o será de todas as línguas.


No momento em que estou a escrever, as bolsas de todo o mundo dão os primeiros sinais de uma recuperação com origem numa decisão política concreta. Talvez amanhã se alegrem mais algumas caras e talvez nessa alegria se possam contagiar milhões já nesta Primavera. Mas esta crise pode ensinar-nos bem mais do que economia. Pode deixar-nos perceber que as soluções já não se encontram todas no quadro da razão. Que as melhores alternativas para quando parece que não existe alternativa são aquelas que estão esquecidas numa prateleira que não se vê mas que está ao alcance do braço. Claro que vivemos em trevas.


Embora a ciência e o conhecimento adquirido sejam o nosso património mais sólido, não é apenas a solidez que importa. Não há paraísos com plantas secas. E quer lhe chamem “pensamento lateral”, fantástico ou maravilhoso, existem dimensões onde pode encontrar refúgio a inquietação de qualquer alma. Não sei se teremos remissão. Mas julgo que nos arriscamos a mais instantes de amor.

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