SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 16:01

2011 – Ano de todas as desilusões

Pois é, Caros Leitores, 2011 foi o ano em que os Portugueses perderam todas as ilusões e o céu lhes caiu em cima. Embalados pelo cantar das sereias, navegávamos em mar chão, pensávamos nós, quando afinal estávamos à beira do precipício. É sempre triste sermos chamados à realidade, e da forma como o fomos, à bruta, sem rodeios e a notícia dada por estranhos que não conhecemos de lado nenhum.

O ano começou com a eleição do nosso Presidente, o chamado “vira o disco e toca o mesmo”, nada de novo, previsibilidade, Portugal prestes a afundar-se, mas a eleiçãozinha garantida, graças a Deus. Pouco importa que a crise fosse arruinando o país, mas a constituição “proíbe”  o Presidente de, nos últimos 6 meses do mandato, fazer o que quer que seja. Abençoada constituição.

Depois chegaram as más notícias. Primeiro os PEC´s, depois aquela rábula socrática, com a múmia representada pelo ministro das finanças, jurando por tudo o que eram almas que nunca pediria ajuda e, finalmente, após um “piqueno” empurrão do PSD, grande chuto no traseiro, que já estávamos todos fartos daquela conversa da treta, desculpem a vulgaridade.

E eis a verdade, nua e crua. Não há dinheiro, venha a “troika”, Portugal passou de bestial a besta, somos uns cábulas, sem dinheiro, pelintras, armados em novos ricos, a viver acima das nossas possibilidades. E como uma desgraça vem sempre mal acompanhada, é fundamental, afinal, pagar o que devemos, isto é, há dinheiro para vencimentos e pensões, mas é preciso poupar de forma a reembolsar os credores, 3 anos depois. Sob pena de os “Mercados” nos tirarem a “cor e o cabelo” como diziam na minha aldeia.

E assim começou a via sacra do pobre contribuinte. Para começo de conversa, dá cá 10%  do vencimento mensal. Não chega. Não? Levas só metade do subsídio de natal. É pouco!!. Aí é?,  aumenta-se o escalão do IRS e o IVA. E bico calado que em 2012 levas mais. E para não ficares “desasado”, desengonçado percebes, passas a pagar também as portagens, que o Cravinho já não manda aqui nada. Não sei se te lembras que foi esse santo homem que afiançou que os Portugueses nunca pagariam por circular em auto-estrada, até lhe chamou SCUT´s que, traduzido, dá “sem custos para o utilizador”. Vejam a clarividência e a visão do futuro daquele bom homem, as construtoras fizeram as estradas, os impostos e o dinheiro da união europeia pagaram-nas, mas quem lá passasse não pagaria, nunca, nem um centavo. “E esta, hein (à maneira da Sra Merkel) !” diria o estimado Peças.

O horizonte, de cinzento, passou a escuro carregado, ameaçando uma valente tempestade. Os bancos, coitados, estão sem dinheiro, de maneira que não podem emprestar aos pobres empresários. Vai daí, fecham-se fábricas, aumenta-se o desemprego, mas, dizem os entendidos, está a fazer-se um teste à economia, apurando a raça das empresas boas que conseguem competir e exportar. Se assim fosse! Por outro lado o estado não admite mais ninguém, tem que se fazer o mesmo trabalho, com o mínimo de gente possível. E para injectar dinheiro nas grandes empresas o estado vai alienar a sua parte, vai privatizá-las na totalidade.

E as empresas de transporte, carregadinhas de dívidas, sem ninguém lhes querer tocar, vá de aumentar os passes, reduzir carreiras, parar em determinadas horas. E para ajudar à festa os trabalhadores, coitados, pensando no bem dessas empresas, fazem greves e plenários, de forma que não recebem, não transportam ninguém, pode ser que a gestão se lembre deles e lhe garanta os aumentos habituais. Enfim, tudo muito à moda dos anos setenta.

E podemos contar com os nossos parceiros europeus? Houve de tudo. Os alemães querem controlo absoluto sobre as finanças públicas, para impedir as surpresas de última hora. Os franceses, apavorados com a perda do triplo A, que significa mais juros sobre o que pedem, estão divididos entre o encosto à Alemanha e sua vocação social, leia-se recondução do Sarcozy a novo mandato. Quem está bem não quer financiar os pobrezinhos. A dúvida sobre a sobrevivência do euro instala-se. O nosso futuro depende do que a união pensa sobre solidariedade, federalismo, controlo financeiro de Bruxelas. Muitas perguntas e tão poucas e assertivas respostas. Veremos o que as novas cimeiras nos vão revelar.

Mas não aconteceram só desgraças. No futebol fomos campeões de uma taça europeia e a nossa selecção foi apurada para o Europeu de 2012.  Mourinho foi considerado o melhor treinador de mundo e os nossos judocas ganharam medalhas de nível mundial. Portanto, pelo desporto, já lá estamos.

E o fado também não se ficou para trás. Foi considerado património da humanidade e ganhou visibilidade planetária. Mesmo lá, onde descansa, a Amália deu o seu forte contributo, como grande Portuguesa que é.

E as nossa exportações continuam a aumentar, a criar riqueza e a manter os postos de trabalho. Inovadores e desenrascados, muitos dos nossos empresários já saíram e foram procurar quem nos ajude, em Angola, no Brasil, na China, em todo o lado onde possam vender e afirmar a nossa qualidade.

Os nossos Cientistas estão em grande, cheios de criatividade e plenos de energia. Temos gente com muito saber, reconhecidos mundialmente, na área da biotecnologia, da informática, da robótica, da saúde.

Por falar na saúde, mudanças se avizinham. Veremos o que vai acontecer, nomeadamente, ao CHMT. Uma coisa é certa, o controlo financeiro vai determinar a necessidade de diminuir custos. Em saúde é uma tarefa difícil e melindrosa. Basta ver os novos avanços nas terapêuticas, nos exames e os preços dessas inovações. Se não aumentarmos a nossa renda em saúde rapidamente o SNS perderá qualidade. A impossibilidade de baixar impostos não vai permitir que os privados sejam parceiros concorrenciais com o sector público. Por isso, claramente, surgiram os co-pagamentos, na urgência, nas consultas, nos exames complementares de diagnóstico. Mas por outro lado aumentou o nº de pessoas com isenção. A definição do rumo a seguir merece a reflexão de todos e, politicamente, impõe-se um consenso muito alargado que clarifique essa orientação.

Enfim, um ano para recordar, pelas piores razões. Como só nos vamos encontrar em 2012, boas festas para todos e, à ribatejana como é óbvio, coragem para enfrentar “ a fera”.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados