SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 18:15

Em Elvas…

A viagem já estava programada e decorreu sem sobressaltos, até chegar a Portalegre e dirigir-me na direcção de Campo Maior e posteriormente Elvas. Chegamos à terra da floresta mediterrânica, grandes sobreiros e azinheiras, com copas altas e largos diâmetros, conforme os corticeiros e quem faz lenha as define. Por baixo, restos de vegetação seca, castanha acinzentada, com relva verde a surgir e destacar-se, após as chuvas outonais. Por entre os ramos, raios de sol, oblíquos, luminosos, de fins de tarde, chegam à relva, criando espaços de luminosidade que tem encantamento.

A diabetes é realmente um problema grave de saúde pública. Tanto assim é que a Sociedade Portuguesa de Medicina Interna promoveu a reunião anual do seu núcleo de estudos, na cidade de Elvas. Num local com óptimas condições de acolhimento – centro transfronteiriço de negócios – e respeitando um programa científico bem elaborado, foi possível ouvir-se em conferências, mesas redondas e debates, algumas das preocupações que dizem respeito a este assunto.

Ainda sem se ver a cidade, avista-se o monte encimado pelo célebre Forte da Graça. Antes do 25 de Abril, era um local militar, dizia-se que um paiol e uma prisão. Quando adolescente, diziam-me que os prisioneiros, eles próprios, transportavam a água do Vedor, no sopé do monte, até ao referido forte. Para nós adolescentes a sua presença impressionava e as descrições do sofrimento dos prisioneiros deixava-nos atemorizados. Pensávamos também no que ele representava como vigia da fronteira e dos movimentos das tropas castelhanas. Ou seja, muita imaginação e alguma admiração por aquele local tão altivo e dominador.

E a reunião começou com a participação de um Professor de Badajoz que, no seu linguajar estremenho, arrazoou sobre a importância da dieta e da qualidade alimentar que deve estar subjacente na pessoa com diabetes, reforçando a importância da quantificação das calorias, até para se ter ideia da quantidade de insulina que o diabético necessita antes de iniciar a sua refeição. Sublinhou as percentagens, na alimentação, que devem respeitar aos hidratos de carbono  – massas, pão, arroz, …- às proteínas – carne peixe – e às gorduras – óleos, azeite, manteigas. Referiu a importância das nozes, avelãs, amêndoas, de casca, seus malandros, já que possuem gorduras – os ácidos gordos polinsaturados – que protegem as artérias e impedem a formação do colesterol mau – o LDL – e fazem aumentar o colesterol bom – o HDL.

Chegar a um local que já conhecemos impõe sempre contextos de comparação entre o que nos recordamos e a realidade, 25 anos depois. E realmente o que existe deixa a anos-luz os aspectos do passado. Após uma curva de uma estrada agora em boas condições de circulação, vislumbra-se o perfil da cidade, amuralhada, distinguindo-se por detrás dos grossos muros, a brancura das casas da cidade velha, com as suas igrejas e os seus prédios da década de 40, mesclados nas construções baixas, mas cuidadas, desta velha urbe.  E a entrada na cidade faz-se cruzando o imponente aqueduto que transportava a água para os Elvenses. Demorou quase 100 anos a ser feito mas mantém-se em pé, imponente, elegante e definindo claramente o limite da cidade.

Um dos temas discutidos foi o inicio da terapêutica com insulina. Clarificou-se o porquê de demorarmos tanto a iniciar insulina aos Diabéticos. Radica nos medos dos doentes – ser picado, engordar, pensar que se está muito mal para ter que iniciar insulina, … – e na reserva dos próprios médicos que sabem que iniciar insulina significa um compromisso com o doente, a necessidade duma maior disponibilidade, o perigo de surgir hipoglicemia (baixa do açúcar no sangue), necessidade de se reforçar o ensino. Depois falou-se também dos diversos tipos de insulinas que dispomos hoje, e dos diferentes esquemas que podemos utilizar, tendo sempre em conta o tipo de pessoa a quem vamos começar insulina, o seu estilo de vida, o tipo de cuidados na dieta, a associação de insulina com os “comprimidos”. Uma sessão bastante participada e clarificadora.

Depois na cidade, as avenidas limpas e os espaços verdes bem cuidados. A entrada na cidade velha, ultrapassando aquelas muralhas, largas de muitos metros, as ruas estreitas mas asseadas, a praça central, agora cheia de esplanadas e cafés, as lojas dos atoalhados frequentadas ainda por espanhóis muito faladores e bastante compradores, alguns turistas mais loiros, enfim, aspectos acolhedores de uma cidade velha de séculos, que foi invadida, várias vezes, por espanhóis e franceses, mas que nunca se deixou dominar nem colonizar.

E falou-se também da importância de uma equipa para tratar as pessoas com diabetes. Essa equipa deve existir ou ser formada, quer nos centros de saúde, quer nos hospitais. O seu núcleo é constituído, pelo menos, por um médico e um enfermeiro e, se for possível, incluir, um cirurgião, um podologista, um nutricionista, um psicólogo, um assistente social, entre os vários profissionais que a podem integrar. É fundamental haver sempre um hospital de referência para onde serão enviados os casos mais complexos e que, evidentemente, necessitem de cuidados específicos hospitalares. Esta equipa deve garantir apoio aos doentes, iniciar um programa de educação para a saúde sobre o tema diabetes, cumpre-lhe definir as condições de acessibilidade e elaborar normas e fundamentos de tratamento, seguimento e encaminhamento para as pessoas com diabetes, respeitando as orientações definidas pelas sociedades científicas nacionais e internacionais.

E quando se chega ao cimo da avenida vemos o forte de Santa Luzia, os campos da raia, Badajoz ao fundo e, adivinha-se, o Guadiana, escondido por entre os campos de regadio, muito sugado pelos grandes motores de rega, prestes a entrar no maior lago artificial da Europa, o Alqueva. Do outro lado, de quem vem de Vila Boim, os campos de trigo, agora castanhos, argilosos, por serem lavrados e trabalhados pelas alfaias agrícolas. E os alinhados e bem tratados olivais, na direcção de Juromenha, onde se colhem as célebres azeitonas de Elvas que todos apreciamos como entradas, e saídas, de belíssimas refeições.

E, por fim, falamos da grande epidemia da diabetes que já ultrapassou todas as previsões, do atingimento da china, índia e estados unidos que farão disparar os números, de forma assustadora. Calcula-se que cheguem aos 480 milhões em 2025.

O caminho é a prevenção. Voltar ao exercício, abandonar a cadeira, mexer-se, comer verduras e legumes, não deixar crescer a barriga, adivinhar-se a doença e tratar bem os diabéticos logo que seja feito o diagnóstico. Sem isto, nada feito.

Cumprimentos para todos

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