SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 23:37

Afinal a Urgência do H. de Torres Novas fecha ou não fecha? – Parte I

 

Caros Leitores para responder a esta pergunta faço uma outra que me parece também importante. A urgência do HRSI tem que fechar, obrigatoriamente?

 

Para responder a esta pergunta várias surgem, como antecedentes. Afinal como é que chegamos aqui? A resposta óbvia tem a ver com os sucessivos buracos financeiros que foram agora identificados e que não são mais do que a representação objectiva da incúria e incompetência com que nos têm (des)governado desde há muitos anos.

 

Se Portugal, como país, tem um défice “colossal”, a Madeira tem um défice tipo caso de polícia, o CHMT têm um prejuízo crónico que se sustenta em 3 razões; défice de médicos, iniciado em 2002, que obriga à contratação de prestadores pagos acima do que seria razoável e sem que, em muitas circunstâncias, haja a respectiva produção que o suporte; custos indirectos exacerbados, pela simples razão de que são 3 hospitais e não 1 que contribuem para esta rúbrica; finalmente um aumento exponencial da parte administrativa, com uma administração com excesso de gente, várias sub-administrações – chamadas direcções de unidade – que na maior parte dos casos não se percebe qual a sua missão e objectivos e, também, departamentos e chefias intermédias de que se desconhece obra e razão de existência.

 

A cobrir este bolo está, tipo cereja, uma forma de gestão totalmente inadequada, quer aos tempos, quer à especificidade do centro hospitalar. Esta gestão caracteriza-se por uma politização excessiva e uma incapacidade em funcionar de forma autónoma, quer em relação ao interior do CHMT, na ligação com as chefias técnicas, quer em relação ao exterior, nomeadamente na interacção com as autarquias e com os centros de saúde, entidades estas que seriam parceiros de eleição para uma organização do tipo do CHMT.

 

O resultado desta situação é o seguinte; produção (leia-se, doentes tratados) a diminuir em cada ano que passa, custo acrescido por cada doente tratado, aumento das despesas com pessoal, custos indirectos, por via da componente logística, imparáveis. Por outro lado, por incapacidade gestionária, impossibilidade de realizar as reformas necessárias, quer na parte administrativa, que alberga muitos funcionários encostados aos cartões partidários, quer na parte técnica, que não consegue estruturar um plano condutor e uma política que tenha como base os interesses dos doentes e não os pequenos interesses corporativos.

 

Logicamente que, na actual conjuntura financeira, o governo manda gastar menos, elabora algumas orientações que, se por um lado moralizam financeiramente o sistema, por outro lado afastam ainda mais os hospitais dos centros de saúde, o que, em conclusão, deixa a pouca mão de obra médica isolada em dois campos separados e, por ser pouca, incapaz de responder ao excesso de procura atraída por uma porta aberta com as características do serviço de urgência ou dos serviços de atendimento.

 

Portanto qual é o panorama que neste momento existe. No CHMT, médicos insuficientes, mesmo que aproveitando os recursos ao máximo, coisa que não está a ser feita, para responder a 3 urgências. Daqui a necessidade de recorrer aos prestadores externos. Estes ao verem cortados, de forma abrupta, os seus vencimentos, tentam pressionar no sentido de obviar a um corte tão drástico, criando, por essa via, uma dificuldade extrema na composição das escalas.

 

Há outro pormenor que convém aqui ser referido. No famigerado “plano de estruturação das urgências” encomendado a um grupo de médicos pelo Ministro Correia de Campos, nos idos de 2006, foi atribuído a Torres Novas o epíteto de urgência básica. Dos vários itens que consagravam a classificação de urgência básica nenhum se verificava em relação a Torres Novas, sendo que já nessa altura eram vistos, por dia, mais de 150 doentes, um dos itens a partir do qual se classificaria de Urgência Médico-Cirúrgica.

 

Um dos pormenores desta classificação, contestada nessa altura por um grupo de Médicos do HRSI, mas à qual o ministro fez “orelhas moucas”, deriva da menor valorização financeira atribuída aos doentes observados na urgência básica. O Conselho de Administração ao aceitar esta classificação ficou desde logo amputado de um dos instrumentos financeiros para garantir a manutenção da urgência de Torres Novas. Curiosamente em 2009 e 2010 a urgência do HRSI foi a que atendeu mais Utentes (79.000 em ambos os anos), ao contrário de Abrantes que atendeu 72.000 Utentes em 2009 e 68.000 em 2010, e muito longe de Tomar que apenas atendeu 48.000 em 2009 e 2010.  Descortino na classificação de urgência básica para o HRSI, “uma mãozinha da reaça”, leia-se influência política da altura, e todos sabemos “quem é o pai da criança”.

 

Voltando aos Centros de Saúde, no caso particular de Torres Novas, a falta de Médicos é tal que se tentou a colocação de Médicos estrangeiros, sendo que, e muito bem, não podem começar as suas funções sem haver provas claras das suas competências e habilitações. Assim há nesta altura uma enorme falta de Médicos de Medicina Geral e Familiar – calculam-se em cerca de 15 000 os Utentes sem médico, no concelho de Torres Novas – o que cria uma população que apenas dispõe do “ Recurso” ou do SU do hospital. Voltaram a surgir, como há muitos anos atrás, as filas às 4h da manhã para ter uma consulta no Centro de Saúde ou simplesmente para lhes ser passada uma receita. São os próprios Utentes que me referem esta situação quando me consultam no hospital.

Nesta conjuntura, quando o Governo impõe restrições financeiras, qual o caminho mais fácil para poupar e diminuir a factura? Restringir ou mesmo acabar com os serviços de urgência. Há no entanto outras hipóteses que podem ser exploradas e, num tempo de sacrifícios, impõe-se unir esforços de forma a garantir qualidade e capacidade de resposta aos Utentes.

 

Continuaremos no próximo artigo. Cumprimentos.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados