SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:34

EASD – um grande congresso

 

Caros Leitores hoje vou falar-vos do congresso da EASD – European Association for the Study of Diabetes (Associação Europeia para o Estudo da Diabetes), que decorreu este ano em Lisboa e amplamente noticiado na comunicação social. Trata-se de um congresso anual que, a par com a reunião da Associação Americana de Diabetes, reúne muitos dos médicos que, a nível mundial, se dedicam à diabetes nas suas vertentes investigacionais, educacionais e clínicas.

 

Em Lisboa estiveram presentes, de 12 a 16 de Setembro, cerca de 18.000 congressistas, de todas as partes do mundo. Daqui resulta tratar-se também de um congresso muito grande. Como consequência a indústria do turismo – hotéis, empresas transportadoras, restaurantes, museus, comércio, Lisboa como cidade – encaixou uma verba estimada em 50 milhões de euros. Acresce que os nossos visitantes despertaram para as condições naturais de clima, hospitalidade, história e beleza da nossa formosa capital. Estas condições os farão regressar ao nosso país num contexto de apreciar, de forma mais demorada e profunda, aquilo que lhes foi permitido agora antever superficialmente. 

 

A FIL, na Expo, recebeu nas suas fantásticas instalações, este evento que se distribuiu, não só pelos 4 pavilhões da FIL, como também pelo pavilhão Atlântico, que foi, aliás, a sede da maior sala de conferências do congresso. Mais uma vez me deslumbrei com a arquitectura deste pavilhão, sobretudo o seu tecto, o entrançado de madeira, à semelhança das naus de 1500. Abençoado o Arquitecto que sonhou e desenhou aquela obra de arte.

 

Por último devemos homenagear a comissão organizadora do congresso, médicos portugueses que não tiveram receio desta tarefa e ao realizá-la com tanta qualidade honraram todos os portugueses em geral e a classe médica em particular.

 

Dos múltiplos assuntos científicos deste congresso quero sublinhar 3 temas que me parecem extremamente importantes e que, pela sua natureza, extravasam o contexto médico e interessam todos os Leitores e, principalmente, aos Leitores com diabetes.

 

O 1º tema prende-se com a importância que os episódios de hipoglicemia (baixa de açúcar) têm na história desta patologia. Quer nos diabéticos tipo 1, quer no tipo 2, a hipoglicemia é um factor que agrava a história natural da doença. Sabe-se hoje que nas crianças e jovens com diabetes a hipoglicemia diminui as suas capacidades de aprendizagem, de forma permanente, e predispõe ao aparecimento de alterações neuronais (das células do cérebro) que podem levar ao aparecimento de epilepsia.

 

No que se refere às pessoas com diabetes tipo 2, que representam 95% dos diabéticos, a hipoglicemia está associada ao agravamento da doença macrovascular, isto é, aquela que afecta os grandes vasos e é responsável pelos AVC´s, doenças do coração, que causam os enfartes do miocárdio e angina de peito, e doenças das artérias dos membros inferiores, de que resultam, na maioria dos casos, as terríveis amputações.

 

Daqui decorre que todas as pessoas com diabetes devem estar familiarizadas com os sinais de hipoglicemia, com a forma como ela deve ser tratada e, sobretudo, como deve ser prevenida. Este assunto reforça a importância da educação para a saúde que, na esfera da diabetes, deve fazer parte de qualquer programa assistencial, quer ao nível hospitalar, quer no âmbito dos centros de saúde.

 

O 2º tema tem a ver com as terapêuticas que existem para o tratamento da diabetes. Está aprovado, nos Estados Unidos, um fármaco que, além de controlar o açúcar no sangue, baixa o peso das pessoas com diabetes e pode ser administrado uma vez por semana. Como se sabe um dos grandes problemas das pessoas com diabetes reside na resistência ao efeito da insulina, que se agrava com o aumento do peso. Este factor, aumento do peso, está muitas vezes associado ao uso da insulina e é muito difícil de ultrapassar. Daí a importância de podermos dispor de um fármaco que, baixando o açúcar, baixa também o peso. Além do mais diminui também a doença macrovascular, responsável pela maioria das graves consequências na saúde dos diabéticos.

Este fármaco possui ainda uma característica de importância crucial, isto é, não provoca baixa de açúcar/hipoglicemia. Faz parte do grupo dos fármacos inteligentes – como costumo explicar aos diabéticos que me consultam – que diminuem o açúcar no sangue até um determinado nível, a partir do qual deixam de pressionar o organismo a baixar a glicemia, evitando-se os episódios de hipoglicemia. 

 

Perante estas características, dir-se-ia que é um fármaco feito quase de propósito para os diabéticos portugueses que, na maioria dos casos, têm excesso de peso ou são obesos, aderem mal às terapêuticas e não têm conhecimentos suficientes para prevenir a hipoglicemia. No entanto, e por razões financeiras e outras que ninguém percebe, não está comercializado em Portugal, com grave prejuízo para os portugueses com diabetes. 

 

O 3º tema é de crucial importância. Está hoje confirmado que é possível diminuir a percentagem de Pré-diabéticos que evoluem para a situação de diabetes. E é também possível, em menos casos no entanto, que nunca se atinja o estádio de doença. Está também provado que as complicações são menores e menos graves se, desde o diagnóstico inicial, o diabético for bem tratado e consiga um controlo efectivo da sua doença logo que esta lhe seja detectada. Daí a importância de um diagnóstico precoce, de uma pesquisa detectivesca dos eventuais diabéticos que ainda não estão diagnosticados e de um programa terapêutico efectivo que trate e combata a doença logo no seu início.

 

Portanto, a somar ao êxito do congresso, há notícias que nos dão esperança. Assim a sociedade, o governo e os médicos cumpram o seu papel e ajudem as pessoas com diabetes, no sentido de estas poderem controlar a sua doença e assim impedir o aparecimento das graves consequências que ela determina se for deixada à sua sorte.

 

Cumprimentos a todos.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados