SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 02:30

Mudar é preciso

 

Caros leitores após assistirmos à mudança política que o povo português entendeu assegurar, aproveito para discorrer sobre ela.

 

Mudar é, em si mesmo, um contexto universal. Acontece permanentemente e transforma-nos, de forma mais ou menos favorável, de acordo com aquilo que é visível, mas, em boa verdade, não obedece à nossa vontade, nem tão pouco aos nossos interesses. Falo, neste caso, da mudança biológica, inscrita nos nossos genes, definida pelo ADN. Sobre ela a medicina, a biologia e a biotecnologia debruçam-se afincadamente, procurando o elixir da juventude e tentando contrariar os danos, tantas vezes responsáveis pela diminuição e pouca qualidade da nossa, cada vez maior, esperança de vida.

 

Também no contexto da natureza essa mudança existe, criando vida e proporcionando a evolução que todos os dias nos surpreende e que impõe novas interrogações e novas descobertas, sempre na tentativa de continuarmos, de forma narcísica, a entender e a pensar que tutelamos a sua evolução.

Se olharmos para a nossa alma percebemos que mudar significa apurar, eliminar o que não nos interessa e gravar na memória o que nos deu prazer, tentando repetir, de forma mais elaborada e cada dia mais intensa, os primeiros sentimentos de puro prazer que são fundamentais para manter a intenção de continuarmos a viver, assumindo que viver vale a pena, quer pelo que sentimos, quer pelo que fazemos sentir aos outros.

 

E a racionalidade utiliza a mudança de forma permanente. Pensar, conforme o nosso grande Neurologista Damásio escreveu, significa percorrer a rota dos neurónios, primeiro por caminhos bens estruturados – tipo auto-estrada – depois agulhando por estradas secundárias, mas de bom piso, até atingirmos as simples veredas que cada um de nós irá percorrer e nas quais ganha novos saberes até atingir o objectivo final.

 

Obviamente que a inteligência ajuda, elimina obstáculos, a experiência cria uma base de dados que permite escolher, mas muitas vezes são os caminhos, aleatórios, o célebre acaso, ou a graça divina, de acordo com o credo que se professe, que nos conduzem ao êxito ou, quando o azar surge, aos becos sem saída que impõem retrocesso e novamente novas escolhas.

 

E a mudança social, decorrente da mudança económica e interligada à mudança política define o percurso dos grupos de homens, depois transformados em habitantes de países e, finalmente, identificados por traços e vivências comuns e por passados reconhecíveis e de orgulho, o caminho das nações.

 

É aqui que encontramos Portugal, uma das nações mais antigas do mundo, com um passado inigualável, que nos orgulha, mas também, noutros contextos, uma nação fraca, que não soube fazer as escolhas necessárias e por isso tantas vezes dependente de terceiros e incapaz de criar condições de vida que não tenham a desigualdade como ferrete social.

 

Todos nós nos lembramos do 25 de Abril, a página que se abriu, a mudança que tudo iluminou, a claridade que, aparentemente, incidiu sobre um país obscuro, atrasado e aprisionado, de forma que a transparência, a igualdade de oportunidades e a esperança no futuro fossem o sonho da maioria dos Portugueses.

 

Mas há muitas formas de mudar e a nossa foi sendo concretizada de forma que a transparência, a igualdade de oportunidades e a esperança pertenceram ao léxico de alguns e foram esquecidas pela maioria.

 

Criou-se uma constituição dita de “Direitos” mas os deveres e os valores foram sendo varridos para debaixo do tapete, em prol de uma sociedade de consumo acrítica, em que o dinheiro, que vinha de qualquer lado, não queríamos saber de onde e não nos era explicado mas aparecia, ia sustentando um estilo de vida que não era real nem tão pouco perdurável.

 

Até que chegamos a 2011, ano de todos os perigos. Tivemos um 1º Ministro que orgulhosamente dizia a quem o queria ouvir que só passando pelo seu cadáver teríamos o FMI em Portugal. No outro lado do espectro, um Ministro das Finanças que, ingénuo ou demasiado sério e apolítico, dizia que se não pedíssemos dinheiro, não haveria tesouraria para pagar vencimentos à função pública e talvez, quem sabe, a reforma aos Pensionistas. Já apreciaram bem o risco?

 

E a mudança ocorreu. Percebeu-se que sem dinheiro não há pão para comer, roupa para vestir, máquinas e sementes para trabalhar no campo, tijolos para construir e fábricas para produzir.

Tivemos que nos vergar. Mas as pessoas não esqueceram. Agora os Protagonistas são outros. Prometeram trabalho, menos estado, melhor justiça, menos paternalismo, maior possibilidade de escolha na educação e na saúde. Tudo isto sem alijar o apoio aos mais carenciados. Quem pode contestar a justeza destas promessas.

 

E as condições políticas existem. Há maioria – cuidado com as serpentes – e um Presidente. As condições sociais também. Toda a gente entende que não é possível viver sem produzir. Se calhar as vacas sagradas terão que cair – os direitos adquiridos só para alguns, enquanto os jovens se mantém desempregados, as empresas estatais, tipo TAP e outras, que dão prejuízo pago pelos impostos de todos, etc – e o estado tem que deixar de ser padrasto, todos sabem quem são os filhos e a maioria identifica-se com os enteados.

 

Mudemos pois, com coragem, explicando as mudanças de forma simples e clara, deixando os Portugueses serem autónomos e responsáveis.

 

Denunciemos o centrão dos interesses e assumamos, de uma vez por todas, as diferenças. Nós temos direito a saber, não a sermos enganados por uma qualquer agência de comunicação, controleira e interesseira, sita nas caves de S. Bento ou nos Ratos deste mundo.

 

Saudações a todos.

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