SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:16

Cuidados Intensivos – o mito e a realidade

 

Caros Leitores em plena campanha eleitoral fala-vos hoje não de política mas dos cuidados intensivos, um dos equipamentos mais importantes na estrutura hospitalar, quer pela função que desempenham, quer pelo que representam no imaginário dos Utentes e das famílias.

 

 A raiz dos cuidados intensivos surgiu, quer na guerra da Coreia, quer na guerra do Vietnam, onde foram desenvolvidas técnicas de suporte vital que, aliadas ao desenvolvimento da bio-engenharia e biotecnologia, permitiram criar as bases para se conseguir tratar doentes, neste caso militares, com falência de órgãos que, sem esses conhecimentos adquiridos em cenário de guerra, acabariam por morrer.

 

Com o desenvolvimento da ventilação mecânica, das técnicas de diálise e do aparecimento de protocolos terapêuticos de suporte avançado de vida, por um lado, e pelo aparecimento de exames complementares de diagnóstico como a ecografia, a tomografia axial computorizada, a monitorização dos parâmetros vitais à cabeceira do doente e a possibilidade de colocação de pace-maker, rapidamente se concluiu que a recuperação de doentes gravemente comprometidos poderia ser tentada e, em muitas situações, coroada de êxito.

 

Além disso, a juntar aos exames complementares e técnicas de suporte vital, o aparecimento de novos fármacos, quer do foro cardíaco, quer antibióticos, associados a experiências inovadoras cirúrgicas, criaram as condições para um diagnóstico precoce e preciso, intervenções mais cruentas e mais eficazes e sustentabilidade dos doentes após esse tipo de terapêuticas.

 

Foram estas as condições que determinaram o aparecimento das Unidades de Cuidados Intensivos(UCI).  Estas foram chamadas de polivalentes quando tinham condições para tratar todo o tipo de Doentes e de falências orgânicas. Mais tarde surgiram as UCI associadas à falência de um só órgão como foram, e são, exemplos as unidades de cuidados intensivos coronários, unidades neurocirúrgicas, unidades intensivas gastroenterológicas, infecciosas, de queimados, entre outras.

Em Portugal os cuidados intensivos tiveram como grandes impulsionadores, em Coimbra Carrington da Costa, nos hospitais da Universidade, e em Lisboa, no hospital de S. José,  A. Resina. Foram estes Mestres que, na década de 70, iniciaram a escola dos Cuidados Intensivos que, no Porto, nomeadamente no Hospital de S. António, encontrou também terreno favorável para o seu inicio e desenvolvimento.

 

Devemos lembrar que na década de 70 ocorreu uma abertura das escolas de Medicina em Portugal, impulsionada pelo 25 de Abril, levando ao aumento do número de médicos, o que permitiu dar corpo e tornar funcional a criação do Serviço Nacional de Saúde e das carreiras médicas – hospitalar, cuidados primários e saúde pública.

 

Foi esse aumento do número de Licenciados em medicina, integrando-se nos hospitais Distritais, que levou a que os cuidados de saúde se alargassem a todo o país, com os benefícios que todos hoje reconhecemos e que se traduzem em números que nos colocam ao lado dos países mais desenvolvidos do mundo.

 

Obviamente que os CI também beneficiaram desse aumento de mão de obra e, nas escolas de CI de Coimbra, Lisboa e Porto, em regime de formação pós-graduada, foram formados os Intensivistas que hoje trabalham nas múltiplas unidades espalhadas por todos os distritos de Portugal.

 

As UCI possuem características muito específicas e desempenham um papel  estrutural nos hospitais onde estão situadas. Como tratam doentes muito graves, exigem, é este o termo, que os restantes departamentos do hospital, nomeadamente a imagiologia, a farmácia, os serviços de sangue/imunohemoterapia e o laboratório de análises/patologia clínica funcionem de forma rápida, fiável e sobretudo em regime de 24/24horas. 

 

Decorrente da gravidade das patologias é obrigatório que sejam dotadas de equipamentos que permitam sustentar os doentes em falência, na maioria dos casos com compromisso de vários órgãos e funções vitais e, muito importante, que possam utilizar todas as possibilidades de diagnóstico e terapêutica, as mais eficazes e também, porque não dizê-lo, as mais dispendiosas.

Por outro lado atendendo à dependência total dos doentes, devem ser dotadas de recursos  humanos – médicos, enfermeiros, auxiliares – que sustentem a sua funcionalidade, permitindo receber doentes, tratá-los e dar-lhe alta, sempre em regime de adequada rotatividade, de forma a rentabilizar e tornar eficiente toda a estrutura montada. As camas de CI são sempre poucas na perspectiva de quem as procura, mas não devem ser usadas para tratar o que não é tratável, nem para recuperar o que não é recuperável. Ao contrário de uma enfermaria normal -cardiologia, medicina, cirurgia… – o preço/dia de internamento é muito elevado e a relação custo/benefício deve ser muito ponderada, sob pena de estarmos a gastar recursos e a ocupar camas com situações clínicas irrecuperáveis e sem margem de sucesso.

 

De todo este contexto sobressaem várias ideias que todos devemos reter. Nos CI tratam-se doentes, não se fazem “milagres”. Assim é muito importante que sejam admitidos nestas unidades Doentes que tenham possibilidades de ter sucesso no seu tratamento. Desta condição decorre uma outra. É fundamental conhecer o Doente que se admite, saber a história médica pormenorizada, saber que doenças têm, que qualidade de vida tinha antes da sua admissão. Depois avaliar qual o seu risco – há tabelas que nos dão a probabilidade de sobrevivência de acordo com a situação clínica do Doente.

 

Finalmente sublinhamos o seguinte; os CI são de uma importância fundamental, sem eles um hospital não respeita na íntegra a sua missão, mas não podemos exigir o impossível, isto é, temos que assumir quem podemos e devemos tratar e ter coragem ética, perante o Doente, a Família e nós próprios, de reconhecer quem não vamos pode ajudar. Ao fazer isto estamos a criar uma oportunidade para alguém a quem eles poderão ser imprescindíveis à sobrevivência.

 

Até uma próxima.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados