SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:07

S. JOSÉ, O SILENCIOSO

Não temos nos Evangelhos nenhuma palavra proferida por S. José e as referências à sua pessoa são também muito poucas.

Podemos imaginar, através do que escreveu o historiador Flávio Josefo, ou do que consta do Talmude, o que seria a vida de José – a vida de um judeu cumpridor da Lei e piedoso.

São inúmeras as figuras do Antigo Testamento que fazem pensar em José, mas a mais significativa, é a de José filho de Jacob que os irmãos venderam aos egípcios e veio a tornar-se figura de relevo no país, conquistando, com justiça, a plena confiança do Faraó. O Papa Pio IX no decreto que proclama S. José, padroeiro da Igreja Universal, e Leão XIII, seguindo muitos Padres da Igreja e a própria Liturgia, afirmam isso mesmo.

Como José do Egipto, foi encarregado de gerir os negócios do país, por ordem do Faraó, também José foi encarregado de cuidar da Sagrada Família e mais tarde de toda a Igreja.

Assombramo-nos com o silêncio de José, quando viu que Maria, sua esposa, estava grávida. E mais ainda, quando pensamos na atitude que resolveu tomar – deixar Maria em segredo. (…) Se ele não fosse justo, podia dar a Maria um libelo de repúdio, mas isso iria colocá-la muito mal socialmente. Preferiu, assim, assumir ele a vergonha.

Palavras de José não temos, contudo, quando o Anjo lhe dissipou as dúvidas acerca da maternidade da sua esposa, com certeza que no dia seguinte falou com Maria e a nuvem, que envolvia há tempos as suas relações, deu lugar a um brilho de sol de Verão.

Quando teve de ir a Belém para o recenseamento, teve que falar com muita gente para ver se arranjava alojamento para ele e para Maria que estava no fim as sua gravidez, como também teve de comunicar a Maria o insucesso das suas diligências. Só que os Evangelhos não nos deixaram nada registado.

Por cortesia e gratidão falou com os pastores que vieram procurar o Menino anunciado pelos Anjos. Do mesmo modo teria falado com os Magos que, de tão longe, procuraram o Menino à custa de tantos trabalhos.

Quando da circuncisão, foi José que impôs o nome a Jesus, como o Anjo lhe tinha ordenado.

Na apresentação de Jesus no Templo, foi José quem tomou as iniciativas, como chefe de família que era.

(…) E quando avisado em sonhos, por um anjo, para que fugisse para o Egipto, pois Herodes queria matar o Menino, teve, com certeza, de combinar com Maria os preparativos para uma fuga tão apressada. Como seriam as suas palavras? Podemos imaginar que a serenidade e o abandono em Deus nunca lhe fizeram proferir qualquer palavra impaciente. A sua atitude não foi, como nos acontece a nós, produto da nossa fraqueza, a de recriminar Deus e imaginar soluções melhores do que as que o Senhor nos apresenta – é a eterna rebelião do homem-criatura, contra o seu Criador. Com José nada disso se passou: a tónica foi a aceitação e a submissão, corroboradas por Maria.

E como seria a vida na casa de Nazaré? E quando o Menino cresceu e começou a ajudar o pai, como seria a vida na oficina? Só com a imaginação podemos reconstituir as cenas. Os textos apócrifos são prolixos em palavras, em oposição ao silêncio dos Evangelhos.

E quando o Menino se perdeu aos doze anos? A partir daquela idade, qualquer menino estava aos cuidados do pai, enquanto que até aos cinco anos estava aos cuidados da mãe. Como devia José ter perguntado a conhecidos e desconhecidos se tinham visto o Menino!

E a sua ocultação é tão grande, que nem a sua morte nos é narrada. Podemos pensar que morreu antes do começo da vida pública de Jesus, pois não é mencionada a sua presença nas bodas de Caná. No momento da morte, Jesus e Maria prodigalizaram-lhe todos os cuidados que a situação exigia; pensar o contrário seria blasfemo. Maria com a sua ternura de esposa e Jesus com a sua piedade filial, fizeram-lhe sentir que a separação seria por pouco tempo. Morreu tranquilamente nos braços de Jesus e de Maria e por isso alguns Pontífices Romanos, muito especialmente Pio IX, Leão XIII e Bento XV, apresentam-no como padroeiro dos moribundos.

Não temos palavras de S. José, mas ele foi o homem que mais escutou as palavras de Deus. As suas acções falam por si.

Maria Fernanda Barroca

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