SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 18:14

O SABER NÃO OCUPA LUGAR

O saber é como a luz: não ocupa lugar. De facto, se numa sala iluminada com uma boa luz artificial, acendermos mais uma lâmpada, a luz que estava não tem de sair para dar lugar!

Vem isto a propósito da necessidade que temos de aprender até morrer e não temer a saturação.

É lei da vida, que com o passar dos anos vamos envelhecendo, só que isso não deve ser causa de tristeza, frustração e inanição. É realmente aqui que tudo se resume, temos de “aprender a envelhecer”. E de que modo?

Conta Gustavo Corção, no seu livro “A descoberta do outro”: “Uma tarde, dobrando uma esquina da rua Uruguaiana, vi pelo reflexo duma vitrina um senhor magro, vestido de cinzento, com fisionomia gasta e ombros encurvados. Como ia desprevenido, quase lhe tirei o chapéu, respeitosamente, como um menino fazia vendo passar um professor de latim. Mas logo percebi, assustado, que era eu mesmo que levava, debaixo do fato cinzento e sob os ombros encurvados, o ridículo de ter quarenta anos”.

A situação é bastante exagerada, pois que aos quarenta anos uma pessoa não é velha, mas deve começar a pensar que para lá caminha. Deve pois munir-se da única arma capaz de a defender: a actividade. Quando uma pessoa começa a avançar em idade não deve eliminar o trabalho, mas pelo contrário mantê-lo, dentro dos limites do possível, uma vez que não podemos deixar de reparar que as forças vão diminuindo.

Se sabemos que, com o tempo as forças vão sendo menores, é necessário cuidar atempadamente do corpo, para não causar problemas de maior um dia mais tarde. É afinal o que fazemos com o carro ou com os electrodomésticos: quando têm uma avaria mandamos logo chamar o técnico. Ora não vale mais o corpo que as máquinas?

Cuidar do corpo não é, nem deve ser, uma doentia preocupação pelo bem- estar físico ou um receio desmedido da doença. Para um cristão devia bastar a consciência de que o corpo é “membro de Cristo e templo de Deus”. Não há dúvida que cuidar do corpo de um modo sensato, é um dever.

Ocupar o tempo com qualquer actividade é absolutamente indispensável, porque nada cansa tanto como a inactividade. Um Santo dos nossos dias costumava dizer que descansar não é não fazer nada, mas mudar para uma actividade que exija menos esforço.

É isto, afinal, o que agora se chama terapia ocupacional.

Conta-se que uma senhora tinha uma filha deficiente que dela dependia completamente. A senhora tinha uma actividade fora do comum. A filha já com boa idade morreu e a senhora, bastante mais velha, mas que até aí tinha aguentado um trabalho intenso, sucumbiu – tinha deixado de existir a sua razão de viver.

É afinal o que acontece com muitos reformados (por favor vamos banir do nosso vocabulário a palavra “aposentado”, que quer dizer “recolher ao aposento”), quando deixam de trabalhar envelhecem mais num ano do que em cinco de actividade.

Como a esperança de vida está a aumentar com o evoluir positivo da Ciência, e a Segurança Social está exangue, convém pois, prolongar o mais possível a actividade que seja remunerada, para que cada um possa, prudentemente, aforrar para a velhice.

Não quero com estas palavras aplaudir a manutenção a trabalhar de pessoas que já tinham a sua vida programada para alcançar a reforma, e viram quase no fim da carreira, serem alteradas as regras de uma forma abusiva e aquilo que pensavam que tinham confiado a uma pessoa de bem, chamada Estado, está a sofrer cortes.

No tempo da outra Senhora, dizia-se que os ministros só sabiam «cortar fitas», mas sempre era obra feita; actualmente, estes cortam, mas não são fitas, e é caso para perguntar: para onde vai o dinheiro, que lhes não pertence?

Alguém costumava dizer que: “velhos, são os farrapos” e portanto quando cessamos a nossa actividade profissional, por reforma, devemos arranjar ocupações, um hobby como jogar cartas, fazer malha, coleccionar, etc. Ou então dedicar o tempo ao voluntariado, tão necessitado está de pessoas que ajudem. Recordemos que grandes obras foram produzidas quando os seus autores já eram avançados em anos: Goethe terminou o Fausto aos oitenta e dois anos; o quadro “A batalha de Lepanto”, foi pintado por Ticiano aos noventa e oito anos e Rossini escreveu a sua “Missa” perto dos noventa.

O segredo está em considerar que o passar dos anos não traz só perda de forças, mas uma maturidade de espírito e uma serenidade que tudo vence, assim o idoso saiba envelhecer com os olhos no Além e a pensar na outra Vida.

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