SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 02:06

Testemunho impressionante

Quando a conheci, tinha 16 anos. Fomos apresentados numa festa, por um que se dizia ser amigo. Foi amor à primeira vista. Ela enlouqueceu-me.

O nosso amor chegou a ponto em que já não podia viver sem ela. Mas era um amor proibido. Os meus pais não me aceitaram. Fui expulso do colégio e começamos a encontramo-nos às escondidas.

Mas eu não aguentei mais e fiquei louco. Eu queria-a, mas não a tinha. Eu não podia admitir que me afastassem dela. Eu amava-a: desfiz o carro num acidente voluntário, parto tudo o que tinha em casa e quase matei a minha irmã. Estava doido, mas precisava dela.

Hoje tenho 39 anos; estou internado num hospital, sou inútil e vou morrer abandonado pelos meus pais, pelos meus amigos e por ela.

Qual é o seu nome? Cocaína. A ela devo o meu amor, a minha vida, a minha destruição e a minha morte”.

Esta narrativa pertence a alguém que antes de morrer de SIDA, fala com vivacidade sobre os riscos da dependência das drogas. Afirma que as dependências nos levam à perda de liberdade interior, um dos grandes temas do nosso tempo, que encerra inúmeros paradoxos.

O desejo de liberdade que há no coração do homem leva-o a ultrapassar os limites em que lhe parece que está encerrado. Queremos aumentar o nosso poder de transformar a realidade. Mas essa ânsia de liberdade nem sempre encontra o modo de se concretizar. Há ocasiões em que circunstâncias externas objectivas nos oprimem, e se queremos e devemos procurar mudar, há outras em que nos enganamos e culpamos quem nos rodeia, quando o problema e a solução estão dentro de nós.

É o nosso coração quem está prisioneiro do egoísmo e do medo, quem deve mudar, quem deve encarar a dureza da vida, quem deve conquistar a liberdade interior e não consentir fugir da realidade para se refugiar na fantasia e fazer vítima.

Um dos paradoxos da liberdade interior é – na expressão de Jacques Philippe – que ser livre é também aceitar o que não se escolheu. O homem manifesta a grandeza da sua liberdade quando transforma a realidade, mas também quando sabe aceitar a realidade que dia-a-dia lhe é dada. Aceitar as limitações pessoais, a própria fragilidade, as situações e frustrações que a vida nos impõe, são modos de fazer crescer a nossa própria liberdade interior, pois nesse âmbito pessoal podemos chegar a ser muito mais donos das nossas reacções e, portanto, mais livres.

Quanto mais dependemos de nos sentirmos espertos ou poderoso ou atractivos, como essa figura extra-mediática da TV, ou como esse multimilionário da moda, ou como a última top-model do momento, mais difícil nos resultará a aceitação plena da nossa realidade, que deve andar unida a uma firme determinação de melhorar. A verdadeira liberdade interior tem muito que ver com a superação de numerosas “crenças limitadoras” que podem ter-se instalado na nossa mente: «jamais sairei disto, não sirvo para aquilo, sempre serei assim, sou incapaz de fazer isso…», que não são aceitação da nossa limitação mas, pelo contrário, fruto das nossas feridas, dos nossos medos e da nossa falta de confiança própria.

As drogas são um problema, mas são antes de mais e sobretudo, uma má solução de um problema que surge. É uma forma parecida com o escapar à realidade. Quando nos escondemos em refúgios virtuais para iludir a realidade que nos custa enfrentar, estamos a enganarmo-nos. A liberdade está indefectivelmente ligada à verdade. Por isso temos de perder o medo a encarar a verdade de frente e aceitar as suas mensagens e os seus desafios, sempre perceptíveis no coração do homem que a deseja e a procura.

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