SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:00

Mãos de fada

Apraz-me muito falar de minha mãe. Mulher pátria, trazendo no coração as lágrimas sentidas, as doces palavras há muito escutadas pelo meu pai, agora ausente eternamente.

Minha mãe é um búzio onde se ouve o suave som do mar da sua infância, entrelaçado em melodias do sulcar da terra. Minha mãe nasceu no campo, naquela casinha pobre mas rica de amor. Deu os primeiros passos no chão de pedra e lama. Criança que foi, na escola primária tinha o gosto intenso no estudo de Reis e rainhas, seus condados e batalhas.

Minha mãe nunca andou descalça e nunca passou fome. A terra que meu avô plantava dava-lhes os figos, batatas, cebolas e outros produtos.

De menina tornou-se numa bela jovem com seus olhos grandes e límpidos. Aprendeu depressa a arte da costura, trabalhando em casa das senhoras da vila. Também ia visitar a sua irmã que vivia no Alentejo e por lá ficava uns tempos.

Um dia conheceu o seu príncipe encantado. Um jocoso jovem alentejano que em breve partiria para a guerra. Minha mãe era astuta que nem uma gazela e enquanto não descobriu quem era quem, não descansou.

Passado uns meses o soldado voltou são e salvo e a união e a saudade, deram os laços ao amor e felicidade.

Os anos foram passando bem, até que um dia soprou um vento de morte e o mundo caiu. Aos encontrões minha mãe levantou-se, ergueu-se e caminhou comigo a seu lado. Foram anos terríveis, sombrios e fechados. E mal o tempo passava já outra tempestade, quase, nos afogava. Nessa altura o meu estado estava clinicamente arruinado. E minha mãe sempre ali, dizendo-me que eu não ia partir. Sempre me ajudou quando os outros me voltaram a cara; sempre me acompanhou quando os mais chegados disseram que tinham coisas marcadas; sempre me apoiou quando eu chorava sozinha no meu sofá, praguejando a minha falta de força e de amigos; minha mãe nunca se afastou e nunca lhe vi uma lágrima.

E hoje, neste jardim encantado, ouço os sons da natureza e agradeço-te pela mãe que és. Pela mulher que tens sido. És bondosa e amiga. Podemos estar sozinhas, mas há sempre pessoas anónimas, conhecidas e até amigas que se preocupam connosco. Escrevi estas simples palavras, porque as homenagens fazem-se em vida, o reconhecimento que um filho tem por uma mãe deve fazer-se ouvir quando ela o consegue ouvir e não quando o corpo tem um monte de terra em cima.

Feliz dia minha mãe. Um abraço.

Feliz dia para todas as mães de todo o mundo.

Madalena Monge

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