SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 16:37

A dor do poeta

Deambula pelas ruas o homem de sobretudo comprido, apático. Para e olha as cerejeiras carregadas de brincos suculentos que um dia seus lábios trincaram. Sentado, num tronco engelhado, a sua mão desenha palavras sarapintadas no papel amarelecido. Pausa, respiração profunda duma melodia imortal. Nos escombros da sua memória encontra pedaços de cortinas cheias de vida, vozes líricas de admiração, momentos de pura emoção.

Da janela do seu quarto observa os gatos que andam perdidos no castelo. Cambaleiam esfomeados, tamanha é a sua magreza e abandono. Cai uma chuva miudinha no peitoril da janela e ela beberica o seu chá de ervas. Lentamente, abre a caixa de fita de seda vermelha e retira uma pasta de recortes de jornais. Orgulhosa relê o que escreveu, sorri ao recordar profundos lampejos de felicitação dos que leram a sua poesia.

Numa sala pequena e monótona, conversa-se em redor duma mesa redonda. Cafés arrefecidos, canetas nervosas, opiniões restritas.

Por trás do balcão de madeira de carvalho, os poetas aguardam pacientes as causas da morte dos seus poemas na vitrina do jornaleiro.

Vão- se embora tristes poetas de alma ferida. Uma nova ordem injusta, uma dor que se assombra nos seus corações libertos. Juntos, cabisbaixos, murmuram que ser poeta é ir mais além, levar as tradições dum povo para todo o mundo conhecer e um dia passear em cada linha por esta terra ribatejana.

O poeta hoje respira a sua dor amargurado, mas tem esperança que a porta se abra de novo e os seus poemas possam encantar mil pessoas que os voltem a ler,

Madalena Monge

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