SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 23:38

Bolacha Americana

Por altura do verão ainda se vê muitos portugueses rumo a uns dias de descanso. Uns optam pelo campismo, outros alugam casa ou então vão apenas passar um dia onde a carteira de cada um os deixar ir.

Por cá na época de 90 e tal, estava eu nos meus 15 anos, ia com os meus pais para a praia da Nazaré no mês de Agosto. Também me lembro de acampar no parque de campismo em Santa Cruz, onde ia ao cinema de cadeira na mão porque as obras ainda não tinham terminado. Na praia do Pedrogão ficava numa casa alugada com a minha tia e acordava ao som do zurrar do burro e do cacarejo das galinhas, recordando-me do Alentejo.

Mas era na Nazaré que adorava passar uns deliciosos 15 dias com os meus pais. Para lá chegar ia naquelas camionetas dos Claras com as portas ruins de abrir, que roncavam desesperadas ao passar na estrada de Vila Moreira na zona das fábricas. Mais para a frente avistava-se o castelo de Porto Mós, o que significava que as curvas longas e fechadas se aproximavam. Nessa altura levar um saco de plástico ajudava sempre os mais indispostos.

Ao chegarmos à terra onde as mulheres usam sete saias, víamo-nos aflitos para sairmos com malas, colchões e muita bugiganga da rodoviária. Empoleiradas, munidas de tabuletas lá estavam elas apregoar os seus “quartos, zimmers e rooms”.

Bem instalados com as malas desfeitas, barraquinha branca alugada, era hora de desfrutar aqueles dias maravilhosos. Encontrava-se sempre algum vizinho, principalmente uma boa parte dos que trabalhavam na Fiação e Tecidos de Torres Novas. As pessoas conviviam, riam, brincavam. Lembro-me de meu pai fazer buracos na areia e enterrar-me lá, de pregar partidas aos meus amigos, como atar-lhe os atacadores dos ténis. Era uma risada geral.

Lembro-me dos barcos a ancorarem na areia, puxados pela parelha de bois, da farta rede plena de carapau e sardinha.

As noites eram sempre muito animadas, com os ranchos a desfilarem na avenida. Nesses anos gordos as ruas principais eram fechadas e um mar de gente inundava o espaço. Eram os primeiros passos de fuga até à discoteca, as primeiras noitadas, os primeiros amores de praia.

Foram anos e anos passados ao som da vendedora das bolas de Berlim, dos refrigerantes e do Rajá fresquinho.

Hoje, a fábrica dos turcos encerrou, o meu pai partiu, mas eu e minha mãe quando pudemos vamos até à nossa querida praia da Nazaré, onde ainda se ouve o homem com o seu pregão: “- Olha a bolacha americana!”.

No mais distante pensamento ouço as vozes da minha adolescência e dos meus amigos rematando: “- É para a avó e para a mana”!

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