SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:47

Luís Paula um amigo de luta

Quando chegava a época de Verão entrava mais cedo no meu local de trabalho. Por volta das 07h20m apenas se viam meia dúzia de gatos-pingados em circulação e uns míseros carros estacionados junto dos cafés para abrirem a pestana com uma bica. A sua viatura já lá estava no sítio certo, à hora certa. Nunca vi aquele homem atrasar-se. Refilava de manhã, com os filhos pachorrentos de tanto sono, mas passado uns segundos já não era nada com ele. Mesmo quando eu chegava, fazia-me o favor, sem lhe pedir nada, de me abrir as persianas do bar, as portas e ligava a máquina de café. O padeiro chegava com o pão fresquinho e o pasteleiro deixava as bolas de Berlim e não só a fazerem crescer água na boca ao mais resistente seguidor de dietas. Entretanto o Luís Paula ia fazer mais um giro e depois durante o dia era o homem dos sete ofícios. Tinha jeito para uma série de coisas: ou cortar a relva, consertar uma persiana, podar as árvores, mudar uma lâmpada ou ir de pasta a outros serviços públicos. Um dia fui conhecer o seu mundo de recordações. Num pequeno gabinete super limpinho fiquei encantada com o placard repleto de fotografias de barcos, que navegavam em vários mares. Dissera-me que andara na faina dos barcos de recreio. Fizera muitos amigos, mesmo não falando a sua língua. O Luís Paula era uma pessoa que gostava de brincar, dizia piropos, piadas mas nunca faltava ao respeito a ninguém. Sabia como devia agir e com quem brincar. Às vezes perguntava-lhe se conhecia alguém dos Riachos, que era onde residia e ele respondia: – “Ó Madalena vivo lá mas quase nem conheço alguns vizinhos”! Lembro-me das festas e da sua perícia manual de transformar uma melancia num pato ou num urso. Era um prazer saborear a fruta com tal criatividade. Também me contava as peripécias quando servia em festas de casamento ao fim de semana. Com o à-vontade de sempre fazia rir as madames borrifadas de pó de arroz e mais uma vez praguejava de carregar as panelas escada acima e escada abaixo dum restaurante cá do burgo. E um dia o meu amigo Luís Paula sucumbiu. Telefonava-lhe, incentivava-o a lutar. Na minha visita ainda vi o Luís Paula que há uns anos tive o prazer de conviver na Escola Secundária Artur Gonçalves em Torres Novas. Por motivos de saúde, não te pude acompanhar na marcha lenta e triste, por isso deixo-te uma salva de palmas por tudo o que fizeste ao longo da tua vida terrena. Os meus sinceros pêsames a toda a família.

Aguianegraentaor@gmail.com

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados