SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:15

Falar em crise…

 

Em dias de mercado semanal, há sempre quem apareça do nada com algo para vender. Esta semana, estava eu numa loja de cá, quando de repente entra um jovem, com uma mochila às costas, um saco de plástico na mão e um maço de pensos rápidos na outra. Perguntei-lhe porque não estava a trabalhar noutro lado. Disse que não havia emprego. Comprou os pensos na loja do chinês e andava a tentar a sua sorte. Contou que já trabalhou, ganhou dinheiro e comprou umas calças que lhe custaram 50€.

 

A funcionária disse-lhe que no mercado encontrava mais em conta. E a sua resposta descarada foi: “- sou jovem, não posso comprar nesses sítios”. Também uso um perfume que custa 40€. “

           

Não sei se ele estava a gozar com a nossa cara, ou, não, mas dá que pensar. Não mencionou onde vivia, mas tem sotaque estrangeiro. Não compramos os pensos e ele foi embora, aborrecido e a praguejar. Hoje em dia é assim. Todos tentam vender algo. Uns resmungam, choram enraivecidos, porque não conseguem ganhar mais de mil euros mensais.

Outros preferem poupar nos bens essenciais como a alimentação ou o aquecimento no Inverno, mas depois vemo-los passear na passerelle da vida adornados com as grifes de marca.

           

Somos uns pobres coitadinhos não somos? Acreditamos nas promessas políticas. Devíamos antes acreditar em nós, na nossa capacidade intelectual de saber fazer. Os preços aumentam a olhos vistos, mas não passamos aquela fome terrível que alguns povos passam; não vivemos sob um regime religioso que mata em nome de Deus; não acordamos ao som de balas pois não?

           

Mas continuamos o país dos coitadinhos. E em todos os países desta aldeia global, vivem e trabalham portugueses que souberam acreditar que iriam conseguir ultrapassar obstáculos.

           

Portugal não é só o Ronaldo, o fado e a sardinha assada. Portugal é muito mais, tem alma, tem coração, tem terra para plantar, tem paz onde podemos viver sem sobressaltos de ataques terroristas.

           

Talvez me chamem sonhadora, não importa. O que me tem dado forças para não baixar os braços é o que já vi e vejo ao meu redor.

           

Há uns anos fui ao Rio de Janeiro e em muitas ruas vi miséria. Pessoas a dormirem em plena Copacabana durante o dia. Meninos de rua batendo às janelas dos restaurantes mendigando comida.  E vi uma cena que me marcou. Uma vendedora de camisetas encostada a um balcão dizia:

– “ Me dá um chopinho, hoje posso pagar, amanhã já não sei.” Esta frase ficou para sempre na minha memória porque ela não tinha quase nada, mas aquela garra pela luta diária, dava-lhe mais coragem para não se deixar ir abaixo.

           

E porque nós não sabemos encarar a vida com mais alegria? Afinal foi um português que descobriu o Brasil.

           

Não se encostem, sonhem, mas acordemos todos! Fiquem com uma imagem paradisíaca, mas bem lá no fundo da imagem há uma favela onde vivem milhares de seres humanos, onde as suas lágrimas são sorrisos 

 

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados