SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 13:34

Coração Ferido

 

– “ O Marcinho partiu! “. Recebi ontem esta mensagem no meu telemóvel. Tive de reler a frase várias vezes, para me tentar convencer que era verdade. Uma verdade cruel, que gelou as veias do meu corpo apesar do intenso calor. O meu estado de choque foi tão grande que parecia uma zombie a caminhar pela rua calcetada, apinhada de gente. Naquele instante se tivesse asas voava para junto do meu querido amigo.

 

O Márcio descobriu-me numa rede social da Internet e começamos a comunicar. Descobrimos que passamos por tratamentos semelhantes; que os nossos cabelos caíram; que padecíamos do mesmo mal. Por isso e apesar da diferença de idades, ficamos amigos do coração. Ele em Ermesinde e eu em Torres Novas.

 

Um dia falou-me da Ana que também passara pelo mesmo e é de Beja. Havia um intercâmbio positivo entre o Norte, o Centro e o Sul.

 

Nos finais do ano passado, falamos em organizar um fim-de-semana do doente oncológico, ao qual o Márcio me disse: “- Hoje sinto-me cheio de força, para o ano não sei! “

 

Nunca chegamos a dar aquele abraço pessoalmente, mas ele fazia parte do meu mundo. Ele ao contrário de mim dizia que não tinha medo de morrer. Quando estava bem, transbordava energia, estudava, tocava viola, divertia-se, saia com os amigos.

 

De repente lembrei-me da Ana e dei-lhe a horrível notícia, Ficou estupefacta como eu. Trocamos mensagens enquanto eu tentava engolir uma taça de sopa. Tinha de comer algo, não podia dar-me ao luxo de não me alimentar. Senão a minha situação nervosa pioraria.

 

O tempo passava e eu ali plantada, como se as pilhas do relógio tivessem esgotado a sua bateria. Neste compasso vazio sem vontade de dar um passo em direcção à rua, relembrei momentos passados.

 

Sempre que voltava dos tratamentos de quimioterapia, havia visitas e promessas no ar. Diziam que quando eu melhorasse iam passear comigo. Ainda hoje estou à espera dessas promessas.

 

Aquando dos meus tratamentos de Radioterapia as visitas escassearam e nessa altura é que precisava de apoio, de força dos tais amigos. Não me estou a armar em vítima, porque sozinha entre as paredes do hospital lá arranjava forças vindas não sei de onde para continuar a acreditar que o dia de amanhã iria ser melhor.

 

O Márcio era o meu confidente, o meu amigo que entendia bem o que a minha solidão significava e eu a dele.

 

Infelizmente na nossa sociedade a palavra amigo quer dizer muitas vezes “ amigos de ocasião”, por isso diz o povo que – “ conheces os amigos no hospital ou na prisão “.

           

Para espantar um pouco a minha nostalgia dei uma espreitadela ao palco principal das festas da cidade e assisti um pouco à actuação dos ciganos da Roménia. Deixei que a música entrasse no meu corpo e dancei pela vida, pela coragem e pela liberdade.

 

Pela coragem de conseguir dançar apesar do meu coração estar completamente ferido. Ontem fiz o papel dos palhaços, morrem de tristeza no seu íntimo, mas em palco fazem rir o mundo inteiro.

 

Apelo então para que não abandonem os vossos amigos. Porque o distanciamento só leva a separações. Sejam mais sensíveis e tenham mais paciência com quem já teve a vida por um fio.

 

A noite está quentíssima, tenho a ventoinha ligada e os pensamentos numa só frase: “ – O Márcio partiu, com 21 anos. Deixou a família, amigos, colegas da faculdade destroçados.

 

Paz à sua alma!

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