SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 04:18

Amizades de areia

No meu tempo de escola quando terminava o ano tinha um bloco de folhas coloridas que andavam de mão em mão entre os colegas para deixarem a sua morada e um autógrafo. Era um costumo religioso e durante as férias escrevia para os meus amigos, pois não havia telemóveis e muito menos internet e computador. Ficava muito contente quando o carteiro deixava uma carta na minha caixa de correio.

Quando cheguei à fase académica os blocos foram substituídos pelas fitas, cada uma com a sua cor conforme o curso. Em Maio era a bênção das pastas e dávamos fitas aos familiares e amigos para escreverem umas palavras. Recebi muitas frases e textos com desenhos a acompanhar muito importantes para mim. Muitos dizeres tinham no final o seguinte: “- Amiga nunca te esquecerei”, “- quando precisares estarei aqui”, “- Um dia se fores à minha ilha terei enorme prazer em receber-te”. Eu acreditava que aquelas amizades seriam para sempre. E ontem abri de novo a pasta e li cada de novo a escrita nas fitas. Lembrei-me de cada rosto, de cada momento que partilhamos juntos.

O ano passado o meu destino de férias foi conhecer a ilha da Madeira e lá fui recebida de braços abertos por aqueles amigos de coração. Mostraram-me a ilha, levaram-me a locais que só os residentes conhecem. Foi bom. Soube tão bem. No entanto fui procurar uma pessoa amiga daquele tempo de estudante. Procurei, perguntei e telefonei. A resposta foi zero. Então eu perguntei a mim mesma: Para que prometem coisas que nunca cumprem? Que raio de amigos são esses que quando estão cá aproveitam-se da nossa bondade e depois ignoram-nos? Estas atitudes são de amigo? Não são com certeza.

As pessoas dizem na altura o que lhes vem à cabeça para ficar bonito, mas na realidade nem sempre é assim. Recordo-me também que dantes alguns amigos que tinha em Lisboa passavam a vida a convidar-me para lá ir passar uns dias. Um dia caí numa cama de hospital e informei-os. Esperava eu receber o seu apoio, a amizade, uma palavra reconfortante, uma visita e sabem quantos me visitaram? Duas amigas. Depois agradeci com uma mensagem escrita irónica àqueles que me voltaram as costas. Claro que não acharam piada e desculparam-se. Isso a mim é pura falsidade.

As amizades são puras e são para a vida e também vos posso dizer que tenho amigos assim. Há outras amizades que seguem o seu rumo como as areias do deserto. Sopram, esfumam-se, mas mesmo longe continuam a fazer parte de nós.

O que nunca devemos fazer é fazer promessas sabendo que nunca as vamos cumprir. E claro que o velho ditado em que diz: “ verás quem são os teus amigos quando estiveres numa prisão ou num hospital”.

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