SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 18:15

“Mordidela de vampiro”

Ao longo da nossa vida o nosso corpo vai-se modificando. Há quem nunca esteja satisfeita com o esqueleto que tem. Ora porque têm barriga, ora porque têm pernas demasiado finas, ora porque não gostam de si e fecham-se num mundo derrotista. É a chamada auto estima em baixo de forma. Eu também já passei por todo esse processo. Não gostava de andar de calções ou de biquíni na praia. Apesar de ser muito jovem na altura, parecia uma pessoa cheia de preconceitos. Simplesmente não gostava de mim. Passei assim largos anos até 2005 em que me descobriram uma doença oncológica nas vias respiratórias.

Como todos sabem tive de fazer quimioterapia e radioterapia e aí sim verifiquei que o meu corpo se transformou num monte de ossos com pouca carne. Após todos os tratamentos fiquei com mazelas no rosto e no pescoço. Não fiz plásticas e aceitei a minha imagem. Nesse momento aprendi a gostar de mim, a exigir mais da minha pessoa. Sentia-me muito bem no meu novo corpo, apesar das pessoas me olharem como se fosse morrer amanhã e isso era e é péssimo.

Hoje passado 10 anos continuo com a minha auto estima em força e com as minhas mazelas visíveis aos olhos da sociedade que por vezes me deixa bastante perturbada com algumas afirmações em alto e bom som. Conto-vos um episódio que aconteceu comigo um destes no TUT. Ia muito bem Saí de casa muito bem-disposta e qual não foi o meu espanto que numa paragem uma senhora se sentou atrás de mim perguntando-me;-“ O que tem no seu pescoço?” Respondi-lhe que tinha sido uma mordidela de vampiro e o bicho até era engraçado”. A conversa foi andando e eu perguntei porque fazia ela essa pergunta. Respondeu-me que via que eu estava com dificuldades em mexer o pescoço. Nessa altura já se tinha sentado uma outra pessoa ao lado dessa senhora e esta disse: “- É do mal”. Meus caros leitores fiquei irritada e disse que já tinha tido o cancro há 10 anos e que estava tudo controlado. Alguns diziam para eu não ligar e para esquecer a situação. Mas não consigo ficar sossegada perante estas afirmações estúpidas. E não é só acerca de mim, é como verem uma pessoa deficiente e chamarem-lhe coitadinho ou gozarem com essa pessoa.

Respondi dessa maneira, porque fizeram a pergunta para a assembleia ouvir. Eu não tenho mal nenhum, a cabeça dos outros é que possuem mal, pois em vez de olharem para si mesmo, andam a divagar por aí.

Deixem o meu pescoço em paz e respeitem as pessoas. Se me perguntarem baixo o que se passa eu respondo educadamente. Se tivesse preconceitos em relação ao meu rosto e pescoço andava com uma burka enfiada na cabeça.

Muito gosta o português de estar sempre a lamentar-se e não a aprender a tirar vivencias positivas do sofrimento. Se eu não fizesse isso já não estaria cá.

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