SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 15:47

Quem tem não sente

Normalmente quando se atinge os 18 anos a maioria dos jovens inscreve-se numa escola de condução para obter a carta de condução. Eu também tomei esse passo, mas confesso que não tinha essa grande vontade como as dos meus colegas tinham. Frequentei aulas de código, ouvindo o burburinho daqueles com mais de 40 anos a dizerem que tudo era difícil e nunca conseguiriam passar ao exame. Comecei a irritar-me com tudo e um dia deixei de frequentar as aulas de código. Com o dinheiro restante comprei um computador e senti-me realizada. Podem dizer: “- Que “maluquice” a dela, trocar o dinheiro da carta por um computador”. Para mim foi e continua a ser muito útil poder usar o meu computador, pois ajuda-me imenso nas minhas escritas e não só.

Depois viajar em transportes públicos é uma mais-valia para mim que gosto de abranger tudo à minha volta. Se tivesse carro, nunca andaria de Alto motora a caminho do Alentejo nos meus tempos de criança. Recordo-me muito bem de apanharmos o comboio no Entroncamento até à estação do Setil e esperar pela Alto-motora com destino a Vendas Novas. Esperávamos ao frio da madrugada invernosa aquela carruagem vermelha com os bancos de madeira. Gostava de sentir os solavancos e olhar a paisagem branca de geada.

Um dia em Vendas Novas encontrei o Abel que mesmo invisual ao ouvir-me falar reconheceu-me. O Abel era do Pafarrão e estudou na Escola Secundária Maria Lamas como eu. Ficava sempre contente por o ver na estação.

Um, dia encerrou o ramal de Moura e lá ficaram as memórias dos sons, dos cheiros e dos sotaques alentejanos no meu pensamento.

Presentemente viajamos de autocarro até Lisboa e depois mudamos para o autocarro que vai para Moura. Deixei de ver o Abel, mas o sotaque alentejano continua e a paisagem dourada é um regalo para a mim.

Quando viajo para o exterior vou de avião e deleito-me com o estar a voar em cima das nuvens, que me parecem algodão doce.

Por cá viajo no TUT. Conhecemo-nos todos e quando alguém não vem perguntamos se aconteceu alguma coisa. Fala-se muito, contam-se anedotas e o povo ri; por vezes chateamo-nos, gritamos e tudo isto faz parte da vida. Cheira a peixe, a frango assado, a suor, a urina, torcemos o nariz mas pronto nada que uma boa desinfeção não ajude, apesar de pouca manutenção se faz nos transportes urbanos torrejanos.

Quando preciso de me deslocar a um hospital chamo uma ambulância e só em casos extremos é que incomodo alguém. Sempre que vou à boleia, ajudo nas despesas do combustível. Aprendi que se não tenho carro, terei de encontrar alternativas para combater a espera da minha boleia. Sem stress, sem lamentos.

Sei que ainda poderei tirar a carta mas não o vou fazer, pois para mim o mais importante é manter a saúde e tenho consciência que a minha visão não é a 100%.

No entanto não me considero uma pessoa dependente como alguém uma vez me disse e me magoou. Sou mais independente do que muita gente que tem carro, pois sempre fui como o Macgayver arranjo soluções para tudo. (risos).

Madalena Monge

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